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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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GRUPO ASSOCIADO À TORTURA “PROTEGE” UNIÃO EUROPEIA

Agente embuçado do G4S às portas do Parlamento Europeu em Bruxelas

2020-03-11

Pilar Camacho, Bruxelas; Exclusivo O Lado Oculto

Guardas embuçados do grupo transnacional de segurança G4S podem ser vistos de novo desempenhando funções junto à entrada do Parlamento Europeu em Bruxelas cerca de dez anos depois de a empresa ter sido afastada devido ao seu longo historial de violações de direitos humanos, incluindo tortura. A G4S presta igualmente serviços à Comissão Europeia tanto na capital belga como em representações através do mundo.

Grupo de “bandeira” britânica, o G4S é mundialmente conhecido não apenas por ser “o terceiro empregador mundial” mas, sobretudo, por estar associado a práticas ilícitas e terroristas desenvolvidas pelos seus seguranças e mercenários. Apesar do currículo nada abonatório em matéria de direitos humanos, o G4S está ao serviço das instituições europeias em troca de verbas chorudas pagas pelos contribuintes dos Estados membros da União Europeia.

Tortura e outras formas de repressão contra palestinianos nas prisões israelitas, perseguição, violência e abusos contra imigrantes em campos de refugiados e centros de detenção, exploração dos seus próprios trabalhadores em condições de trabalho escravo, como acontece no Qatar e Emirados Árabes Unidos, são algumas das práticas referenciadas ao grupo britânico com ramos em dezenas de países do mundo.

O caso do assassínio do cidadão angolano Jimmy Mubenga num avião da British Airways, no aeroporto de Heathrow em Londres quando era deportado de volta ao seu país, em Outubro de 2010, é um caso emblemático das práticas do G4S. Três dos seus agentes forçaram Mubenga a adoptar uma posição no banco do avião que lhe provocou uma asfixia fatal. Os responsáveis pelo crime foram, contudo, ilibados por um tribunal de Londres, como acontece quase sempre com as empresas “de bem”.

Crimes de guerra

Casos como este e o comportamento da G4S na gestão das prisões israelitas da Cisjordânia ocupada, torturando detidos – alguns com idades entre os 12 e os 17 anos – levaram membros do Parlamento Europeu a questionar-se sobre a compatibilidade entre estas actividades, que incluíam também a repressão nos checkpoints israelitas e a segurança do muro de separação e dos colonatos israelitas ilegais, e a protecção das instituições europeias.

O Parlamento cessou então a ligação com o grupo e sugeriu às outras instituições europeias, designadamente à Comissão e ao Serviço de Acção Externa (SEAE), que tomassem atitudes idênticas. Numa carta enviada a estas entidades, já em 2015 uma vez que não havia qualquer reacção a outros níveis, o Parlamento considerou “inaceitável” que instituições da União Europeia tenham ligações contratuais com uma empresa “que se dedica a apoiar actividades que constituem crimes de guerra”.

A carta não logrou demover os dirigentes europeus. E a G4S, alegando que mantinha comportamentos irrepreensíveis, decidiu vender o seu ramo israelita em 2016.

Imagem terrorista

A medida não conseguiu branquear a imagem terrorista do grupo. A própria BBC passou registos de um agente do G4S estrangulando um detido num centro de imigrantes perto do aeroporto de Gatwick, em Londres; existem provas de prática de tortura por seguranças do grupo na prisão de Mangaung, na África do Sul; membros da mesma empresa foram identificados impedindo requerentes de asilo de exercerem os seus direitos na ilha grega de Lesbos; a G4S continua a ser vista na esteira mercenária das guerras “sem fim” desencadeadas pelos Estados Unidos e a NATO.

Em 2019, a Noruega colocou a G4S na “lista negra” das empresas com as quais o país não faz contratos devido às violações dos direitos humanos que pratica. Oslo pôs especialmente em evidência o comportamento nos Emirados Árabes Unidos e no Qatar, onde a G4S recorre ao trabalho escravo dos seus empregados, na sua maioria oriundos da imigração e que, como tal, são tratados como cidadãos de segunda naqueles países.

Nesse mesmo ano de 2019, porém, guardas embuçados ao serviço da G4S ressurgiram prestando serviços no Parlamento Europeu; a empresa foi, portanto, “absolvida” das actividades que continua a praticar e pelas quais fora banida em 2010. Desta feita, a empresa foi agraciada com um contrato de quatro anos para “protecção de incêndio” e “vigilância externa” no Parlamento Europeu.

Uma profunda ligação

As outras instituições europeias, entretanto, nunca chegaram a cortar laços com a empresa de segurança conotada com práticas terroristas. São 70 os edifícios “europeus” que estão sob a alçada da G4S em Bruxelas.

Na Comissão Europeia são agentes da empresa que verificam identidades e reúnem informações sobre jornalistas num banco de dados. Depois imprimem e distribuem identificações que são válidas também nas instalações do Parlamento Europeu em Bruxelas, Estrasburgo e no Luxemburgo.

Além disso, os serviços prestados pela G4S à Comissão Europeia estendem-se através do mundo, em representações da União Europeia no Gabão, Gâmbia, Serra Leoa, Indonésia, Taiwan e Líbano. Em 2019 a G4S foi contemplada com um milhão de euros por um contrato de seis meses na Missão Consultiva da União Europeia em Kiev, na Ucrânia. Esta missão, sublinhe-se, enquadrou-se no âmbito da Política de Defesa e Segurança da União Europeia.

Para se ter uma ideia de como esta associação directa às actividades da “diplomacia” europeia é constrangedora em termos de respeito pelos princípios humanitários sublinhe-se que a G4S não subscreveu os compromissos internacionais sobre o respeito dos direitos humanos e do direito humanitário, inclusivamente em zonas de guerra e conflitos.


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