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MAIS DINHEIRO PARA ARMAS DO QUE PARA A PANDEMIA

Em Itália faltam camas de hospital mas o país tem caças F-35 ao preço de 90 milhões de euros cada

2020-04-02

Na Itália martirizada pela tragédia do novo coronavírus as despesas militares anuais são superiores à verba aprovada pelo Parlamento para combater a emergência sanitária. Faltam camas de hospitais, mas Itália possui os mais modernos caças F-35 norte-americanos, a preços de uma fortuna por unidade. Isto acontece numa Europa em que os Estados Unidos prosseguem as manobras militares em plena crise e onde podem fazer cada vez mais o que entenderem.

Danlio Minucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

Enquanto a crise do coronavírus paralisa sociedades inteiras, forças poderosas tentam retirar o máximo proveito da situação. No dia 27 de Março, a NATO, sob comando dos Estados Unidos, ampliou-se de 29 para 30 membros integrando a Macedónia do Norte. No dia seguinte, enquanto as manobras Defender Europe 20 continuavam – com menos soldados mas mais bombardeiros nucleares – começaram na Escócia os exercícios aeronavais da NATO Joint Warrior, com forças norte-americanas, britânicas, alemãs e outras, que se prolongarão até 10 de Abril - incluindo manobras terrestres.

Enquanto esperam, os membros europeus da NATO estão a ser advertidos por Washington de que, apesar dos prejuízos económicos provocados pelo coronavírus, deverão continuar a aumentar os seus orçamentos militares de modo a “conservarem a capacidade para se defenderem”, evidentemente da “agressão russa”.

Na Conferência de Segurança de Munique, em 15 de Fevereiro, o secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, anunciou que os Estados Unidos pediram aos aliados para desembolsarem mais 400 mil milhões de dólares para aumentar o orçamento militar da NATO, que já ultrapassa largamente o milhão de milhões de dólares. A Itália vê-se assim obrigada a aumentar as suas próprias despesas militares, que já ultrapassam os 26 mil milhões de euros anuais, isto é, mais do que o Parlamento autorizou a gastar pontualmente para a emergência do coronavírus (25 mil milhões).

A NATO ganha assim terreno numa Europa largamente paralisada pelo vírus e onde os Estados Unidos, hoje mais do que nunca, podem fazer o que entenderem. Na Conferência de Munique, Pompeo atacou violentamente não apenas a Rússia mas também a China, acusando este país de utilizar a Huawei e outras empresas como “cavalo de Tróia da informação”, isto é, como instrumento de espionagem. Desta maneira, os Estados Unidos reforçam a pressão sobre os países europeus para que rompam também os acordos económicos com a Rússia e a China e agravem as sanções contra a Rússia.

A soberania é essencial

Que deveria fazer a Itália se tivesse um governo que quisesse defender os verdadeiros interesses nacionais?

Antes de tudo, deveria recusar-se a aumentar as despesas militares, artificialmente insufladas pela fake news da “agressão russa”, submetendo-as a uma revisão radical para reduzir o desperdício de dinheiros públicos em sistemas de armas como os caças F-35, que custam 90 milhões de euros por unidade. Deveria imediatamente suprimir as sanções contra a Rússia, desenvolvendo ao máximo as trocas com este país. Deveria aderir ao pedido – apresentado em 26 de Março na ONU pela China, Rússia, Irão, Síria, Venezuela, Nicarágua, Cuba e Coreia do Norte – para que as Nações Unidas façam pressão sobre Washington no sentido de abolir todas as sanções, especialmente nocivas no momento em que os países são atingidos pelo coronavírus. Da abolição das sanções contra o Irão resultariam também vantagens económicas para a Itália e outros países cujo comércio com o Teerão foi praticamente bloqueado pelas sanções norte-americanas. Estas medidas e outras proporcionariam oxigénio sobretudo às pequenas e médias empresas asfixiadas pelo encerramento forçado, tornaria disponíveis fundos para acudir à urgência actual, sobretudo em benefício das camadas menos favorecidas - e sem se endividar com isso.

O maior risco é o de sair da crise tendo ao pescoço a corda da dívida externa, que poderá reduzir a Itália e outras nações à situação da Grécia. As forças da grande finança internacional, que estão em vias de utilizar o coronavírus para uma ofensiva à escala mundial com as armas mais sofisticadas da especulação, são mais poderosas que as forças militares uma vez que têm igualmente nas mãos os mecanismos de decisão do complexo militar-industrial. São elas que poderão levar à ruína milhões de pequenos aforradores e que poderão utilizar a dívida para se apropriarem de sectores económicos inteiros.

Nesta situação, o exercício da soberania nacional é decisivo. Não a soberania da retórica política mas a real, a que pertence ao povo e é garantida pelas Constituições.


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