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A EUROPA ESTÁ SUBMETIDA A UMA CULTURA DE GUERRA

2021-03-08

Manlio Dinucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

A NATO e a União Europeia são duas criaturas do Plano Marshall. Estão intrinsecamente ligadas, formando as duas faces de uma mesma moeda: o lado militar e o lado civil. A NATO, contudo, está num plano superior ao da União Europeia porque, segundo os tratados, deve garantir a sua segurança. Por isso os jogos de guerra e as campanhas de propaganda sobre as supostas “ameaças” externas tornaram-se o quotidiano dos cidadãos europeus, com ou sem crises pandémicas. As sociedades europeias vivem sob uma cultura de guerra, sugerindo a todo o momento uma necessidade de “protecção” permanente dos Estados Unidos.

De 22 de Fevereiro a 5 de Março decorreram no mar Jónio os exercícios NATO Dynamic Manta de guerra anti-submarina. Participaram navios, submarinos e aviões dos Estados Unidos, Itália, França, Alemanha, Grécia, Espanha, Bélgica e Turquia. As duas principais unidades envolvidas nestes jogos de guerra foram um submarino nuclear norte-americano de ataque da classe Los Angeles e o porta-aviões francês Charles de Gaulle, com propulsão nuclear, e o seu grupo de batalha incluindo também um submarino nuclear de ataque. Logo a seguir às manobras, o Charles de Gaulle tomou o rumo do Golfo Árabe-Pérsico. A Itália, que participou no Dynamic Manta com navios e submarinos, foi a “nação hospedeira” de todas as manobras: colocou o porto de Catânia e a estação de helicópteros da Marinha, também em Catânia, à disposição das forças participantes; e também a estação aeronaval de Sigonella (a maior base Estados Unidos/NATO no Mediterrâneo) e a base logística de Augusta para os aprovisionamentos. Objectivo destes jogos de guerra: a caça aos submarinos russos no Mediterrâneo que, segundo a NATO, ameaçam a Europa.

Simultaneamente o porta-aviões Eisenhower e o seu grupo de batalha efectuou operações no Atlântico para “demonstrar o permanente apoio militar norte-americano aos aliados e o compromisso em manter os mares livres e abertos”. Estas operações – conduzidas pela Sexta Esquadra, com comando em Nápoles e na base de Gaeta – integraram-se na estratégia exposta especialmente pelo almirante James G. Foggo, que esteve anteriormente à frente do Comando NATO de Nápoles: acusando a Rússia de querer bloquear com submarinos os navios que ligam as duas margens do Atlântico, para isolar a Europa dos Estados Unidos, o almirante Foggo considera que a NATO deve preparar-se para a “Quarta Batalha do Atlântico” depois das duas guerras mundiais e da guerra fria. Enquanto decorreram os exercícios navais, bombardeiros estratégicos B-1, transferidos do Texas para a Noruega, efectuaram “missões” à beira do território russo, com caças F-35 noruegueses, para “demonstrar a rapidez e a eficácia dos Estados Unidos em apoiar os aliados”. As operações militares na Europa e nos mares adjacentes decorreram sob as ordens do general Todd Wolters da Força Aérea norte-americana, que está à frente do Comando Europeu dos Estados Unidos e da NATO com o cargo de comandante supremo aliado na Europa, desempenhado sempre por um general dos Estados Unidos.

Pandemia não dissolve “as ameaças”

Todas estas operações militares foram oficialmente motivadas pela “defesa da Europa contra a agressão russa”, invertendo-se assim a realidade: foi a NATO que se expandiu na Europa, com as suas forças e bases, incluindo nucleares, até à beira da Rússia. No Conselho Europeu de 26 de Fevereiro, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, declarou que “as ameaças que tínhamos perante nós antes da pandemia continuam”; destacou no primeiro plano “as acções agressivas da Rússia”, tendo como fundo um ameaçador “crescimento da China”. Em seguida sublinhou a necessidade de reforçar os laços transatlânticos entre os Estados Unidos e a Europa, como deseja vivamente a nova administração Biden, elevando a um nível superior a cooperação entre a União Europeia e a NATO. Mais de 90% dos habitantes da União Europeia, lembrou, vivem hoje em países da NATO (de que fazem parte 21 dos 27 Estados da União). O Conselho Europeu reafirmou “o empenho em cooperar estreitamente com a NATO e a nova administração Biden pela segurança e a defesa”, tornando a União Europeia militarmente mais forte. Como precisou o primeiro-ministro (não eleito) italiano Mario Draghi na sua intervenção, esse reforço deve processar-se num quadro de complementaridade com a NATO e de coordenação com os Estados Unidos. Portanto, o reforço militar da União Europeia deve ser complementar do da NATO, por sua vez complementar da estratégia norte-americana. Esta estratégia consiste, na realidade, em provocar na Europa tensões crescentes com a Rússia, de modo a aumentar a influência dos Estados Unidos na própria União Europeia. Um jogo cada vez mais perigoso, porque força a Rússia a reforçar-se militarmente, e cada vez mais dispendioso. O que é confirmado pelo facto exemplar de em 2020, em plena crise, as despesas militares italianas terem subido do 13º para o 12º lugar mundial, ultrapassando mesmo as da Austrália.


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