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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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QUEM ESCONDE O PAPEL DA NATO NA TRAGÉDIA DA LÍBIA?

Hillary Clinton celebra a "vitória" da NATO na Líbia em coligação com o terrorismo

2020-03-02

Quem acompanha os acontecimentos na Líbia através dos media corporativos poderá ser levado a pensar que a guerra entre os governos de Benghazi e Tripoli, cada um deles apoiado pela sua parte de governos estrangeiros sedentos das reservas de petróleo do país, surgiu agora de uma banal luta pelo poder. Uma cuidada conspiração do silêncio gerida pela comunicação social dominante, escudada na memória tradicionalmente curta dos seus consumidores, faz com que assim seja. No entanto, o caos reinante e onde avultam muitos a rentáveis tráficos escabrosos, entre eles o de escravos, foi gerado por uma coligação militar da NATO com terroristas islâmicos das famílias al-Qaida e Estado Islâmico. Ao contrário do jornalismo/propaganda, a História cultiva a memória.

Ted Galen Carpenter, AntiWar/O Lado Oculto

Um novo relatório das Nações Unidas revela sem rodeios a extensão do caos permanente em que vive a Líbia e o sofrimento que provoca. Yacoub El Hillo, coordenador humanitário da ONU na Líbia, afirma que “é incalculável” o impacto que nove anos de guerra têm sobre a população civil do país. Esta situação terrível é o resultado, a longo prazo, das acções dos Estados Unidos e da NATO; pelo que já é tempo de os dirigentes e os funcionários culpados serem responsabilizados pelas desastrosas políticas praticadas. 

A Líbia é uma arena de conflitos desde que os Estados Unidos e os seus aliados da NATO ajudaram revoltosos a derrubar o regime de Muammar Khaddafi em 2011. O relatório da ONU sugere, entretanto, que a situação ainda se tornou pior ao longo do ano passado. Na Primavera de 2019, o chamado Exército Nacional da Líbia (LNA), baseado em Benghazi, Cirenaica, e chefiado pelo ex-membro da CIA marechal Khalifa Haftar (também conhecido por Hifter), lançou uma ofensiva contra o Governo de Acordo Nacional (GNA), reconhecido pela ONU, com sede em Tripoli. Ao início, o ataque de Haftar parecia arrasador, mas depois foi contido e a situação caiu num sangrento impasse.

O conflito líbio transforma-se cada vez mais numa guerra por procuração envolvendo potências do Médio Oriente, nações ocidentais e a Rússia. Haftar recebe armas, financiamento e outros apoios de várias origens, principalmente Egipto e Emirados Árabes Unidos. Além do apoio diplomático e financeiro prestado por governos da ONU e da maioria dos países ocidentais, o GNA é ajudado pelo cada vez maior envolvimento da Turquia. No início de Fevereiro, Ancara aumentou significativamente a sua intervenção favorável a Tripoli quando o Parlamento autorizou o envio de tropas turcas para a Líbia. Por outro lado, mercenários russos lutam já ao lado das forças de Haftar.

Os interesses envolvidos excedem, em muito, uma vulgar luta mundana por poder político. A Líbia tem as maiores reservas de petróleo e gás natural de África, avaliadas em dezenas de milhares de milhões de dólares. Tanto o LNA como o GNA actuam de modo a utilizar essa arma contra o lado opositor.

Política favorável ao caos

A política dos Estados Unidos parece confusa e ambivalente, benéfica para a situação de caos existente. Washington ainda reconhece o GNA como o governo “legítimo” da Líbia, mas o governo Trump envia sinais que traduzem uma deliberada confusão. Depois de um telefonema de Donald Trump para Haftar, em Abril de 2019, os Estados Unidos pareceram apoiar implicitamente a ofensiva do LNA contra Tripoli. Mais recentemente, as autoridades norte-americanas pediram a Haftar para interromper a ofensiva. No entanto, quando as negociações de paz entre Benghazi e Tripoli foram interrompidas, Washington enviou o seu embaixador na Líbia, Richard Norland, para se encontrar com Haftar mesmo antes de entrar em contacto com o governo de Tripoli, que reconhece oficialmente.

O branqueamento do crime

Não existem quaisquer dúvidas de que a Líbia está mergulhada no caos. Mais uma vez, no entanto, os meios de comunicação corporativos ocidentais estão a tentar retratar a situação como mais um complexo conflito, uma espécie de luta entre o bem e o mal. Há uma clara intensificação da hostilidade jornalística em relação a Haftar, definindo-o como o vilão. O britânico Guardian adverte que a terrível violência na Líbia irá prosseguir enquanto governos externos continuarem a apoiar Haftar. (Aparentemente, a interferência externa em favor do GNA e das milícias islâmicas suas aliadas não terá o mesmo efeito). O New York Times parece estar ao comando da campanha mediática para desacreditar as hostes de Benghazi. Várias histórias publicadas com destaque durante as últimas semanas têm realçado o autoritarismo e a brutalidade do marechal Khalifa Haftar.

A única coisa que a maioria dos meios de comunicação ocidentais não parecem dispostos a fazer é explicar a origem do caos actual na Líbia – muito menos quem são os responsáveis pela tragédia. Esta amnésia conveniente corresponde a um velho padrão.

No final de 2017, os repórteres ocidentais descobriram, um pouco tardiamente, que o comércio de escravos africanos negros capturados se tornara uma característica da Líbia pós-Khaddafi, uma vez “libertada”. Um relato devastador do jornalista Ben Norton, analista de Fairness and Accuracy in Reporting (FAIR), demonstrou a tendência constante dos media corporativos para minimizarem as responsabilidades norte-americanas e da NATO. Em particular, os jornalistas ocidentais ignoram deliberadamente a ligação da guerra com a retoma do comércio de escravos. “Os media norte-americanos e britânicos despertaram para a realidade sombria da Líbia, onde refugiados africanos estão à venda dos mercados de escravos ao ar livre”, observou Norton. No entanto, acrescentou, “um pormenor crucial desse escândalo continua a ser subestimado ou mesmo ignorado em muitos trabalhos dos media corporativos: o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte na restauração da escravatura nesta nação do Norte de África”. 

A NATO apoiou uma série de revoltosos na Líbia, escreveu Norton, “muitos dos quais eram dominados por extremistas islâmicos e visões violentamente racistas”. No entanto, os jornalistas “esqueceram-se deliberadamente do papel principal da NATO na destruição do governo da Líbia, na desestabilização do país e na criação de condições favoráveis à actuação de traficantes de seres humanos”. Além disso, mesmo as poucas notícias que reconhecem a cumplicidade da NATO “não dão o passo seguinte e pormenorizam o racismo violento e bem patente dos terroristas líbios apoiados pela NATO, que deram início à escravatura depois de praticarem limpezas étnicas e de cometerem crimes brutais contra os líbios negros”, escreveu Ben Norton.

Conspiração do silêncio

Entre os exemplos escolhidos, Norton cita um trabalho da CNN em 2017 onde, apesar dos apelativos recursos, “faltava qualquer coisa: em mil palavras, a história não mencionava a NATO, nem a guerra de 2011 que derrubou o governo da Líbia e Muammar Khaddafi, nem traçava qualquer contexto político e histórico”. A mesma omissão aconteceu numa série de notícias subsequentes da CNN sobre o tráfico de pessoas na Líbia, como aliás sucede com muitos outros trabalhos de muitas outras publicações.

Notícias recentes sobre a instabilidade e a repressão na Líbia mostram a tendência habitual para evitar discutir o impacto destrutivo da actuação da NATO na Líbia. Mesmo o pormenorizado artigo do New York Times publicado em 20 de Fevereiro deste ano, dedicado à opressão praticada pelas forças de Haftar, dedicou apenas uma frase ao papel da NATO: “A Líbia vive em tumulto desde uma revolta da primavera árabe e a intervenção da NATO que há nove anos derrubou o coronel Khaddafi”. E é tudo num artigo com quase duas mil palavras.

Quando participam nesta conspiração do silêncio, os jornalistas fogem ao seu dever de alertar o público para a incompetência e as condutas erradas dos governos. Quaisquer que tenham sido os objectivos do governo de Obama no lançamento da intervenção militar que derrubou Khaddafi, os resultados foram indiscutivelmente catastróficos. No entanto, Obama, a secretária de Estado Hillary Clinton e os seus consultores importantes, como Susan Rice e Samantha Power, ainda se recusam a reconhecer os erros cometidos e a pedir desculpas ao povo líbio em sofrimento. Já é mais do que hora de os media corporativos deixarem de favorecer estas fugas às responsabilidades. Trabalhos sobre a actual turbulência na Líbia devem proporcionar imagens claras de um contexto histórico que é vergonhoso.


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