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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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NATO ANEXA A MACEDÓNIA DO NORTE

2020-02-25

Depois de ter manipulado os resultados de um referendo que não corresponderam aos seus interesses e de ter imposto a nova designação do nome do país – com a cumplicidade do Syriza na Grécia – a NATO acaba de anexar a Macedónia do Norte através da aprovação do “Protocolo de Adesão”, consumada por um Parlamento absolutamente domesticado. Isto é, depois de ter “balcanizado” os Balcãs com a guerra de esfacelamento da Jugoslávia, a NATO “desbalcaniza” agora a região, unindo-a sob a sua própria bandeira. De fora está apenas a Sérvia – e espoliada do Kosovo através de uma agressão militar da aliança.

Paul Antonopoulos, Strategic Culture/O Lado Oculto

O Parlamento da Macedónia do Norte aprovou por unanimidade, no dia 10 de Fevereiro, a aceitação do Protocolo de Adesão à NATO, pelo que a antiga República Jugoslávia da Macedónia fica assim a um passo da integração na Aliança Atlântica, o que deverá acontecer já na Primavera.

A integração do antigo território jugoslavo foi acelerada pelo chamado Acordo de Prespa, assinado entre Atenas e Skopje em Junho de 2018 e que pôs termo, à revelia das populações, à discordância de designações entre a província grega da Macedónia e a nação independente resultante da dissolução da Jugoslávia. O Acordo de Prespa, estabelecido já numa perspectiva de integração da Macedónia do Norte na NATO e na União Europeia, foi guiado pelo embaixador dos Estados Unidos na Grécia, Geoffrey Pyatt, que depois organizou a manipulação do referendo e das eleições macedónias de maneira a que este desfecho fosse inevitável. O mesmo diplomata norte-americano participara anteriormente no golpe dito “democrático” que instaurou o actual regime fascizante na Ucrânia.

Abdicar da História

O Acordo de Prespa, inspirado na designação do lago que atravessa as fronteiras da Grécia, da Macedónia do Norte e da Albânia, definiu exactamente o que para os signatários significa “Macedónia” e “Macedónia”. Para a Grécia, segundo o acordo, a designação define uma área e um povo da região do norte do país que herdou a civilização, a história e a cultura helénicas da Antiga Macedónia, incluindo o legado de Alexandre, o Grande. Quanto à Macedónia do Norte, o termo traduz o território da antiga República jugoslava, a língua eslava, o povo eslavo com uma história e uma cultura próprias, agora desligado artificialmente dos antigos macedónios. O acordo significa também o fim das ambições da Macedónia ex-jugoslava em relação ao território grego. No Acordo de Prespa, a facção socialista da corrupta elite dirigente da Macedónia ex-jugoslava formalizou a abdicação de todos os laços históricos e civilizacionais com o antigo Império Macedónio, aceitando mesmo a eliminação dos monumentos evocativos de Alexandre, o Grande.

Como o acordo foi condição necessária para a Grécia deixar de travar o eventual ingresso da “outra” Macedónia na NATO e na União Europeia não foi perdido mais tempo para a sua integração na aliança militar, a exemplo do que aconteceu com outros países que outrora fizeram parte das esferas de influência soviética e jugoslava.

Deste modo, nos Balcãs a NATO inclui já a Eslovénia, a Croácia e o Montenegro; a Bósnia-Herzegovina e o Kosovo são protectorados da aliança; a Macedónia caminha agora para a integração. Não existem mais dúvidas de que o Acordo de Prespa, que provocou turbulência política em Atenas e Skopje, foi assinado essencialmente para facilitar a entrada rápida da recém-baptizada Macedónia do Norte na NATO.

Esta integração acelerada não é apenas uma prioridade essencial para a NATO conter a influência russa nos Balcãs mas também para continuar a pressionar a Sérvia, país que bombardeou em 1999 para proteger a organização terrorista fundamentalista islâmica do Exército de Libertação do Kosovo (UCK). A Sérvia é considerada um “país problemático” pela Aliança Atlântica por ser um bastião que resta da “influência” russa nos Balcãs, impedindo ainda a hegemonia total da NATO sobre a região balcânica.

A colaboração do Syriza com a NATO

O Syriza, organização que estava no poder na Grécia na altura em que a Embaixada dos Estados Unidos delineou e fez aprovar o Acordo de Prespa, sabia perfeitamente que os termos do documento são amplamente rejeitados pelos gregos; mesmo assim pressionou a sua assinatura. É óbvio que o acordo iria acelerar a integração da Macedónia ex-jugoslava na aliança militar, demonstrando-se assim a lealdade tanto de Alexis Tsipras como da Nova Democracia, actualmente no governo da Grécia, em relação à NATO.

Menos de um mês depois da assinatura do acordo, a Macedónia do Norte recebeu, em 11 de Julho de 2018, um “convite” para ingressar na aliança, a que se sucedeu o “Protocolo de Adesão”, elaborado em Fevereiro de 2019 e agora aprovado.

Por outro lado, não existem dados novos no sentido da entrada do antigo território jugoslavo na União Europeia, sobretudo devido à posição francesa de não permitir novos alargamentos sem que sejam dados passos no sentido da integração no âmbito da composição actual a 27.

Para os meios atlantistas é fundamental formalizar a entrada da Macedónia do Norte na estrutura militar para conter e enfraquecer a “influência russa” no país e pressionar a Sérvia; a integração do país na ordem neoliberal política europeia pode esperar mais um pouco.

Apesar de o Acordo Prespa ser impopular tanto na Grécia como no território macedónio ex-jugoslavo, os Estados Unidos e a NATO criaram um sistema de controlo da classe política através dos dois principais partidos – nacionalista e socialista – preocupação que se tornou evidente na altura da votação parlamentar sobre a designação do país como “Macedónia do Norte”: existem provas de que a Embaixada dos Estados Unidos em Skopje comprou deputados com dinheiro vivo de maneira a garantir a maioria necessária. A NATO não esteve disposta a arriscar qualquer falha no Acordo de Prespa e a permitir que a questão do nome do país continuasse a ser um obstáculo à integração do país na Aliança.

Conter a Rússia

Em boa verdade, a Macedónia do Norte não é um membro que, por si próprio, possa contribuir de maneira significativa para a NATO. É um país pobre, com pouco mais de dois milhões de pessoas e que nem sequer está nas imediações da fronteira com a Rússia. Além disso, a sua contribuição para o orçamento de guerra será ínfima, embora venha a ser mais um comprador líquido de armamento, por inerência.

A integração na NATO visa erradicar totalmente qualquer influência russa – uma vez que a maioria da população é eslava e cristã ortodoxa – e isolar um pouco mais a Sérvia, agora a única nação não “atlantista” da ex-Jugoslávia e dos Balcãs.

A colocação do pequeno país como mais um protectorado da NATO na região balcânica vem estender o controlo efectivo da aliança sobre todas as esferas de funcionamento do Estado, e não apenas sobre a elite política. No quadro assim estabelecido, a NATO tem a garantia de que o descontentamento ainda presente na população com o Acordo de Prespa e o nome imposto antidemocraticamente deixe de ter qualquer repercussão nos órgãos de decisão do país. 



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