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GASODUTO NORD STREAM 2 VAI SER CONCLUÍDO

A ligação da Dinamarca à Alemanha completará o Nord Stream 2

2019-11-06

Lourdes Hubermann, Berlim; com Jim W. Dean, New Eastern Outlook/O Lado Oculto

O gasoduto Nord Stream 2 recebeu finalmente luz verde do governo da Dinamarca, pelo que pode estabelecer-se a ligação do sector final a Lubmin, na Alemanha, concluindo-se o projecto. A decisão do governo dinamarquês foi tomada com pouca vontade, devido às pressões norte-americanas em contrário e apesar de a obra passar por águas onde não suscita quaisquer preocupações ambientais. Ligando a Rússia à Alemanha, o projecto transporta gás natural para a Europa a preços muito mais acessíveis do que todas as opções disponíveis até ao momento, designadamente a importação de gás natural liquefeito (GNL) norte-americano, a mais dispendiosa - mas que é exigida por Washington através da ameaça de sanções. 

Ao anunciar a decisão, a Agência de Energia da Dinamarca declara que “foi obrigada a permitir a construção e o trânsito de gasodutos” ao abrigo da Convenção da ONU sobre o direito marítimo.

Enquanto rolhas de garrafas de champanhe voam nas instalações da Gazprom, na Rússia, ouve-se o ranger de dentes nos Estados Unidos. Donald Trump tem afirmado que o Nord Stream 2 torna “a Alemanha refém da Rússia”, o tipo de mensagem de propaganda e desligada da realidade que caracteriza o discurso do actual presidente dos Estados Unidos.

Termina assim parte da controvérsia que tem sido alimentada para impedir a conclusão do projecto, objectivo no qual os Estados Unidos investiram fortemente. O sancionador número um, Donald Trump, advertiu que todas as empresas europeias envolvidas na construção e exploração do gasoduto serão sujeitas a sanções dos Estados Unidos.

Ameaças de Washington

Trump mantém a espada das sanções permanentemente suspensa sobre a Europa, no âmbito das suas promessas de campanha segundo as quais pretende reequilibrar o comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia.

Embora, mesmo na Europa, haja quem se solidarize com Trump e ache que a União Europeia deveria ser obrigada a comprar gás liquefeito norte-americano para mostrar boa-fé na cooperação para reduzir o desequilíbrio comercial norte-americano, a maioria dos países da UE não consideram viável essa estratégia, quanto mais não seja devido ao débil crescimento económico.

O bastão das ameaças de Trump é agitado sobretudo pelo Departamento de Energia. Este “acredita firmemente que o Nord Stream 2 ameaça a segurança energética e a segurança nacional dos aliados dos Estados Unidos na Europa e fortalece o controlo da Rússia sobre o abastecimento de energia à região”, disse um porta-voz do departamento. E ameaçou: “Os Estados Unidos continuarão a analisar todas as ferramentas à sua disposição em relação a este projecto; todas as opções estão sobre a mesa”.

A questão da Ucrânia (e da Polónia)

A questão da Ucrânia como linha da frente da pressão norte-americana e da NATO contra a fronteira ocidental da Rússia é uma das que motiva os antagonismos contra o Nord Stream 2, projecto que dispensa a passagem de gás pelo território ucraniano.

Especialmente queixoso está o actual chefe do regime ucraniano, Volodymyr Zelensky, que afirma: o acordo sobre o novo gasoduto “fortalece a Rússia e enfraquece a Europa”. Zelensky parece um eco de Trump mesmo em tempos em que o caso do pedido de investigação ao ex-vice-presidente Biden poderia sugerir algum distanciamento.

No horizonte de Zelensky está igualmente o facto de os contratos de utilização do território como rota de abastecimento de gás terminarem em 31 de Dezembro deste ano. Há pouco tempo para negociar novos acordos e a iminente entrada em funcionamento do Nord Stream 2 coloca alternativas sobre a mesa. A Ucrânia, juntamente com a Polónia, opuseram-se ferozmente a este projecto e desde sempre têm utilizado a passagem de gás natural por território ucraniano como meio de chantagem sobre o Ocidente, algo que os media corporativos parecem ter apagado dos seus arquivos de memória.

Além disso, alguns países da Europa Oriental estão igualmente preocupados com o gasoduto turco-russo, o Turkish Stream, que proporcionará abastecimento ao sul da Europa e que representa outra via que pode levar a Ucrânia a perder receitas de trânsito de gás pelo território. Para muitos interesses em Kiev, os mesmos que sustentam o regime amparado por organizações fascistas, o golpe da Praça Maidan, em 2014, começa a ser um mau negócio.

Verifica-se também que alguns países, como a Polónia e a Ucrânia, se lamentam por uma situação que eles próprios criaram ao assumirem-se como pontas de lança da russofobia e da marcha da NATO para a fronteira ocidental russa.

Vem a propósito recordar que em plena fase de golpe na Ucrânia, em 2014, dirigentes deste país envolvidos nos acontecimentos, como por exemplo a ex-primeira-ministra Julia Tymochenko, deu entrevistas a meios ocidentais nas quais expôs o projecto de destruir o Donbass e posteriormente a Rússia. Por estas razões, Moscovo tratou de precaver-se contra tal vizinhança, designadamente em termos dos seus principais motores económicos.

Uma aposta de Merkel

Por certo será estabelecido algum tipo de acordo com a Ucrânia para vigorar a partir de 1 de Janeiro de 2020, mas questões fulcrais como os valores das taxas a cobrar estão ainda por decidir. A Rússia pretende adicionar às verbas em jogo a dívida de três mil milhões de dólares que tem da Ucrânia, mas, por outro lado, ambos os países entendem que terão pouco a ganhar com situações que ponham em causa a sua reputação como fornecedores e abastecedores de gás natural.

A história do Nord Stream ficará marcada pela envolvente geopolítica que suscitou e ainda não está totalmente ultrapassada, pois a Casa Branca e o Congresso continuam a manobrar para minar o seu funcionamento, ameaçando punir aqueles que beneficiam com o projecto.

A União Europeia está comprometida com o gasoduto desde a sua génese, mas foi necessário a senhora Merkel mostrar firmeza, chegando a ter momentos de alguma acrimónia com o presidente francês Emmanuel Macron. O compromisso estabelecido foi a reafirmação da política “anti-monopólio” garantindo que o gás natural, uma vez chegado à Alemanha, fica sujeito aos regulamentos de distribuição da União Europeia.

Países que se manifestaram contra o Nord Stream 2 chegaram a alegar que existia o risco de a empresa russa Gazprom cobrar mais pelo gás a países hostis do que aos outros – um argumento totalmente falacioso uma vez que Moscovo aceitou prontamente a regulamentação de distribuição da UE e os controlos a exercer por esta entidade.

Preços baixos

Como o sector alemão do gasoduto já está concluído, com a decisão tomada agora pela Dinamarca é provável que o gás comece a fluir no início de 2020. Isso acontecerá numa fase em que a Europa estará bem abastecida de gás, uma vez que tem procedido a aprovisionamentos na perspectiva de existirem atrasos no Nord Stream 2. A situação poderá proporcionar os preços de gás natural mais baixos na Europa em muitos anos.

O facto acontece em muito boa hora quando se prevê que o crescimento económico em toda a Europa não ultrapasse 1,2% este ano, sendo que a Alemanha se pode ficar pelos 0,4%.

Bruxelas tem todo o interesse em que o novo gasoduto venha demonstrar que consegue estabilizar o fornecimento e os preços de gás natural à União Europeia durante os próximos anos. E a Rússia encara o fornecimento a preços baixos como uma vitória para os dois lados, uma demonstração de que o recurso ao gás natural liquefeito norte-americano, transportado em navios, é uma opção anti-económica.

É verdade que muitos sectores ligados à energia, mesmo nos Estados Unidos, nunca conseguiram entender como poderia Trump pensar em vender gás liquefeito mais caro à Europa, sendo que não abundam na União Europeia as infraestruturas prontas para lidar com essa situação. O presidente norte-americano, porém, continua a insistir na ideia de que os clientes europeus vão preferir pagar mais caro o gás só por ser originário dos Estados Unidos.

Por detrás deste comportamento poderá estar a ideia de Trump de incluir o gás natural num acordo comercial geral com a União Europeia, tal como está a tentar fazer nesta fase com a China. A Casa Branca propõe-se atenuar a guerra comercial se Pequim aceitar comprar 50 mil milhões de dólares anuais em produtos agrícolas norte-americanos, o que poderá acalmar os agricultores e facilitar a reeleição do actual presidente. 

Washington reagirá à derrota

Não existem dúvidas, porém, de que os Estados Unidos continuam a tentar encontrar maneiras de minar o funcionamento do Nord Stream 2 e perturbar o fornecimento de gás natural à Europa a preços mais acessíveis. Washington pretende provar, mais uma vez, que resistir ao unipolarismo norte-americano não compensa. O estabelecimento de sanções a empresas e instituições europeias associadas ao gasoduto é um caminho previsível. Como reagirá a União Europeia?

De momento, contudo, há a registar uma alteração qualitativa muito importante, que representa uma derrota da estratégia norte-americana. Até agora, o objectivo era impedir a conclusão do Nord Stream 2, tal como aconteceu anteriormente com o South Stream. A decisão dinamarquesa veio demonstrar que Washington falhou. Agora só poderá actuar com o gasoduto em funcionamento, situação que lhe será muito menos favorável.





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