O Lado Oculto é uma publicação livre e independente. As opiniões manifestadas pelos colaboradores não vinculam os membros do Colectivo Redactorial, entidade que define a linha informativa.

ESCLAVAGISMO PORTUGUÊS E RESISTÊNCIA

2019-09-23

Jorge Fonseca de Almeida*, especial para O Lado Oculto

Uma das mentiras mais difundidas pelos supremacistas brancos portugueses é a de que o tráfico de pessoas escravizadas era normal para a época e que não encontrou resistência nem oposição. A outra é todos os outros povos europeus também escravizavam africanos e que o papel de Portugal até foi secundário.

Portugal – papel principal na escravização dos negros

O segundo mito está hoje amplamente documentado, sendo pacífico que Portugal traficou metade de todas as pessoas escravizadas e transportadas de África para as Américas (Norte, Centro, Sul e Caraíbas). Ou seja tanto quanto todas as outras nações esclavagistas europeias juntas. Não foi, pois, um papel secundário foi o principal papel nesta tragédia humana de grandes dimensões. 

Só para o Brasil, Portugal traficou uma grande parte dos negros escravizados mas também vendeu pessoas para outros pontos da América do Latina e do Norte -“Cerca de 40% dos africanos escravizados tiveram como destino o Brasil” (Furtado et al, 2014).

Também sabemos que a vida média de uma pessoa escravizada e levada para trabalhar no Brasil era de apenas sete anos. Eis como o humanismo e benevolência portuguesa se materializavam sobre os negros escravizados, violentados, torturados.

                                                   

Conhecem-se também os métodos de transporte das pessoas escravizadas, e os castigos corporais a que estavam constantemente sujeitas. No caso das mulheres, das violações sucessivas que conheciam às mãos dos seus algozes. Por exemplo, a máscara era usada para punir pessoas escravizadas que procuravam comida. Dessa forma ficavam privadas de se alimentar durante dias.

                             

Outro castigo era o do esmagamento dos polegares com a utilização de uma espécie de quebra-nozes denominada apropriadamente de anjinhos, uma vez que era abençoada pela Igreja Católica, que obviamente não era a única religião do mundo.

                                      

                                                                                                                  Anjinhos

Os quilombos

                         

                                                                                       Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares

A escravização de pessoas não era normal para a época e muito menos se fez sem resistência.

No Brasil, uma das formas de resistência era a fuga. Milhares de pessoas escravizadas fugiram e constituíram as suas comunidades, chamadas quilombos, que defendiam dos constantes ataques dos esclavagistas. Os quilombos organizavam a agricultura e as pequenas manufacturas, assegurando a vida em liberdade dos seus habitantes. Possuíam também tropas que defendiam o seu território.

As primeiras pessoas escravizadas foram levadas à força para o Brasil em 1554. Logo em 1580 há notícia da constituição de um primeiro quilombo na zona dos Palmares, constituído por pessoas escravizadas que conseguiram fugir dos engenhos da Capitania de Pernambuco. “Essa era a alternativa possível diante do quadro de escravidão: refugiar-se em local de difícil acesso e manter-se em posição defensiva, lutando para sobreviver” (Freitas, 1984)

O Quilombo dos Palmares incluiu várias povoações (mocambos) e chegou a ter dezenas de milhares de habitantes, chamados quilombolas.

O Quilombo de Palmares resistiu durante mais de uma centena de anos, só tendo sido derrotado em 1710.

Existiram quilombos em todo o Brasil e em toda a América Latina, prova de que as pessoas escravizadas aspiravam à liberdade e recusavam a escravidão a que eram sujeitas. Os quilombos abrigavam uma população maioritariamente negra, mas também incluíam, em boa harmonia, populações indígenas e até alguns brancos.

Só para que se perceba não ser fenómeno isolado, aqui deixo a lista dos principais quilombos que existiram nas regiões da Baía e do Rio Grande do Sul.

Quilombos da Baía

 1. Quilombo do rio Vermelho

 2. Quilombo do Urubu

 3. Quilombo de Jacuípe

 4. Quilombo de Jaguaribe

 5. Quilombo de Maragogipe

 6. Quilombo de Muritiba

 7. Quilombos de Campos de Cachoeira

 8. Quilombos de Orobó, Tupim e Andaraí

 9. Quilombos de Xiquexique

10. Quilombo do Buraco do Tatu

11. Quilombo de Cachoeira

12. Quilombo de Nossa Senhora dos Mares

13. Quilombo do Cabula

14. Quilombos de Jeremoabo

15. Quilombo do Rio Salitre

16. Quilombo do Rio Real

17. Quilombo de Inhambuque

18. Quilombos de Jacobina até o Rio São Francisco. 

Quilombos de Minas Gerais

1. Quilombo do Ambrósio (Quilombo Grande)

2. Quilombo do Campo Grande

3. Quilombo do Bambuí

4. Quilombo do Andaial

5. Quilombo do Careca

6. Quilombo do Sapucaí

7. Quilombo do morro de Angola

8. Quilombo do Paraíba

9. Quilombo do Ibituruna

10. Quilombo do Cabaça

11. Quilombo de Luanda ou Lapa do Quilombo

12. Quilombo do Guinda

13. Lapa do Isidoro

14. Quilombo do Brumado

15. Quilombo do Caraça

16. Quilombo do Inficionado

17. Quilombos de Suçuí e Paraopeba

18. Quilombos da Serra de São Bartolomeu

19. Quilombos de Marcela

20. Quilombos da Serra de Marcília

Note-se que as autoridades portuguesas primeiro, e as brasileiras depois, procuravam activamente enviar as suas forças para dispersar os quilombos, recapturar os seus habitantes e escravizá-los de novo. 

O seu grande número, as suas populações numerosas mostram que a resistência era grande e a vontade de liberdade do povo negro escravizado inquebrantável.

Quando se quer passar outra mensagem que não esta simples verdade, o que se pretende é esconder a História para manter as ideias do supremacismo branco e do racismo.

As revoltas

                                                                   

As pessoas escravizadas conseguiam organizar-se e revoltar-se contra os seus algozes. “As rebeliões representaram a mais directa e inequívoca forma de resistência escrava colectiva” (Reis, 2015).  

No Brasil assistiu-se a um conjunto de grandes revoltas de pessoas escravizadas, que se intensificaram no século XIX. Citemos: algumas “Revoltas escravas se espalharam ao longo do século XIX: 1832, em Campinas (SP); 1833, em Carrancas (MG); 1838, em Vassouras (RJ);1854, em Taubaté e São Roque (SP); 1857-1859, em Bananal (RJ); 1864, em Serro (MG); 1867, em Viana (MA); 1871, em Itapemirim (ES); 1882, em Resende (RJ); 1883, em Campinas (SP); e 1884-1885,em São Mateus (ES)” (Gomes e Ferreira, 2008)

Mas antes também se verificaram outras rebeliões que por vezes levavam à morte dos esclavagistas. “Em 1789, por exemplo, no engenho Santana de Ilhéus, Baía, os escravos mataram o feitor e se adentraram nas matas com as ferramentas do engenho” (Reis, 2015).

Vemos, pois, que a resistência foi contínua e assumiu muitas formas, desde a fuga para lugares seguros onde constituir uma comunidade e organizar a defesa, até às revoltas tendentes a tomar o poder, passando por simples rebeliões com vista a eliminar esclavagistas cruéis e odiosos.

O desejo de liberdade esteve sempre presente ao longo dos séculos de cruel e desumana escravização levada a cabo por portugueses.

*Economista, MBA

Referências

Gomes, Flávio e Roquinaldo Ferreira (2008), “A miragem da Miscigenação”, Novos Estudos, Março, pp 141-160   

Furtado, Marcella Brasil, Regina Lúcia Sucupira Pedroza e Cândida Beatriz Alves, (2014), “Cultura, Identidade e Subjetividade Quilombola: uma Leitura a partir da psicologia cultural”, Psicologia e Sociedade, Volume 26, Número 1, p 106-115

Freitas, D., (1984), Palmares – A guerra dos escravos, Porto Alegre, Mercado Aberto

Reis, João José, (2015), “Nos achamos no campo a tratar da liberdade”: A resistência escrava no Brasil oitocentista”, Projeto Raça, Desenvolvimento e Desigualdade Social, [Em linha] Disponível em http://www.erudito.fea.usp.br/PortalFEA/Repositorio/1181/Documentos/leitura_1_1_1.pdf, acedido em 20 de Setembro de 2019


Mais notícias...

Iniciar sessão

Recuperar password

goto top