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O JOGO DAS BASES MILITARES EM ÁFRICA

Camp Lemonnier, base norte-americana em Djibuti

2019-01-21

Manlio Dinucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

Criado em 2007, na sequência de um estudo israelita, o AfriCom (Comando dos Estados Unidos para África) não instalou o seu quartel-general no continente. A partir da Alemanha, esta estrutura conduz – juntamente com a França, na região do Sahel – operações designadas como antiterroristas. Em troca, as empresas transnacionais norte-americanas e francesas mantêm um acesso privilegiado às matérias-primas africanas.

Os militares italianos em missão em Djibuti ofereceram máquinas de costura à organização humanitária que apoia os refugiados neste pequeno país do Corno de África, localizado numa posição estratégica na rota comercial fundamental entre a Ásia e a Europa, na embocadura do Mar Vermelho frente ao Iémen. A Itália tem uma base militar neste território desde 2012, que “fornece apoio logístico às operações militares italianas que se desenvolvem na região do Corno de África, do Golfo de Adem, da bacia somaliana e do Oceano Índico”.
Em Djibuti, os militares italianos não se ocupam apenas de máquinas de costura.
Nas manobras Barracuda 2018, que se realizaram nesta região em Novembro passado, os atiradores de elite das Forças Especiais (cujo comando é em Pisa) treinaram-se em toda a espécie de condições ambientais, incluindo nocturnas, com as armas de precisão mais sofisticadas e podendo alvejar objectivos a um e dois quilómetros de distância. Desconhecem-se as missões em que participam as Forças Especiais, uma vez que as suas missões são secretas; em todo o caso, elas realizam-se essencialmente num quadro multinacional sob comando norte-americano.

Assassínios selectivos

Em Djibuti encontra-se também o Campo Lemonnier, uma grande base norte-americana a partir da qual opera, desde 2001, a “Task Force” conjunta-Corno de África, formada por quatro mil especialistas em missões altamente secretas, designadamente execuções selectivas a cargo de membros de forças de comando ou de drones assassinos, sobretudo no Iémen e na Somália. Os aviões e os helicópteros envolvidos em operações especiais operam a partir do Campo Lemonnier, enquanto os drones estão concentrados no aeroporto de Chabelley, a uma dezena de quilómetros da capital. Estão em vias de construção outros hangares, obra que foi confiada pelo Pentágono a uma empresa da região italiana de Catânia que já foi responsável pelos trabalhos em Sigonella, a principal base de drones dos Estados Unidos e da NATO para as operações em África e no Médio Oriente alargado.
Em Djibuti existem também uma base militar japonesa e outra francesa, que acolhem ainda tropas alemãs e espanholas. Em 2017 juntou-se-lhes uma base militar chinesa, a única no exterior do território nacional. Se bem que tenha essencialmente objectivos logísticos, como o acolhimento das tripulações dos navios militares que escoltam as embarcações comerciais e um entreposto para abastecimento, a base representa um significativo sinal da presença crescente chinesa em África.

Guerra contra actividades civis

É uma presença essencialmente económica, à qual os Estados Unidos e outras potências ocidentais contrapõem uma presença militar crescente. Daí a intensificação das operações realizadas pelo AfriCom, que tem dois importantes comandos subordinados em Itália: o Exército Norte-Americano para África, no quartel de Ederle, em Vicenza; e as Forças Navais Norte-Americanas Europa-África, cujo quartel-general funciona na base de Capodichino em Nápoles, constituídas por navios de guerra da Sexta Esquadra, fundeada em Gaeta.
No mesmo quadro estratégico encontra-se outra base norte-americana de drones armados, em construção em Agadez, no Níger; país onde o Pentágono já utiliza a base aérea 101 em Niamey, também para drones. Esta serve para operações que os Estados Unidos realizam há muitos anos no Sahel, em conjunto com a França, sobretudo no Mali, no Níger e no Chade.
Estes países figuram entre os mais pobres do mundo, mas são muito ricos em matérias-primas como minério de tantálio (usado em telefones móveis e computadores), urânio, ouro, petróleo e muitas outras – exploradas por empresas transnacionais sediadas nos Estados Unidos e em França; e que receiam cada vez mais a concorrência de empresas chinesas, que oferecem condições bem mais favoráveis aos países africanos.
A tentativa para conter o avanço económico chinês através de meios militares, em África e noutros lados, está em vias de fracassar. Até porque, muito provavelmente, as máquinas de costura oferecidas por militares italianos aos refugiados são elas próprias “made in China”.


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