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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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“AGENDA VERDE”, UM BODO AOS RICOS

2020-02-04

F. William Engdahl*, New Eastern Outlook/O Lado Oculto

Em pouco mais de um ano as grandes instituições corporativas que contam no mundo parecem ter entrado na onda da nova “agenda verde” de medidas radicais para “conter” as mudanças climáticas. Até o bastião da globalização económica empresarial, o Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça, a transformou no tema principal da reunião deste ano, envolvendo “as partes interessadas num mundo coeso e sustentável”. Entre as noções em foco esteve a “de como salvar o planeta” em que a conferencista em destaque foi a jovem activista sueca Greta Thunberg. O que poucos percebem é como tudo isto está a ser orquestrado com cuidado para preparar uma mudança massiva nos fluxos globais de capitais, movimento através do qual um punhado de gigantes financeiros tem tudo a ganhar.

De Greta ao príncipe Carlos os temas de Davos em 2020 foram dominados, pela primeira vez, pela agenda das mudanças climáticas. O que circulou através dos bastidores da reunião de cerca de três mil gigantes corporativos mundiais foi a orquestração de uma campanha global envolvendo os principais directores de fundos de investimentos e os mais importantes banqueiros centrais do mundo.

Os curadores de Davos

O facto de o Fórum de Davos, entidade promotora da globalização, estar por detrás da agenda das mudanças climáticas não acontece por acaso. O Fórum Económico Mundial (FEM) tem um conselho de curadores e entre eles está o principal patrocinador de Greta Thunberg, o multimilionário do clima e presidente do Climate Reality Project, Al Gore. Outro dos curadores do FEM é a ex-directora do FMI, Christine Lagarde, agora presidente do Banco Central Europeu e cujas primeiras palavras no cargo foram no sentido de os bancos centrais terem de fazer do clima uma prioridade. Outro curador de Davos é o ex-presidente do Banco de Inglaterra, Mark Carney, que acaba de ser nomeado consultor do primeiro-ministro Boris Johnson para as mudanças climáticas e vem alertando para os riscos de o clima provocar a falência dos fundos de pensões. O conselho de curadores integra ainda o influente fundador do Carlyle Group, David M. Rubinstein; Feike Sybesma, do gigante do agronegócio Unilever e que é igualmente presidente do Fórum de Liderança e Alto Nível sobre Competitividade e Preços de Carbono do Grupo Banco Mundial; e talvez o mais relevante em termos de impulsionar a nova agenda verde seja Larry Fink, fundador e presidente executivo do fundo de investimentos BlackRock.

A carta de Fink 

O BlackRock não é um fundo de investimentos qualquer. Sediado em Nova York, é o maior gestor de activos do mundo, com um volume de sete biliões (sete milhões de milhões) de dólares investidos em mais de cem países – um valor que ultrapassa o PIB combinado da Alemanha e de França. O BlackRock domina a titularidade accionista das principais bolsas do mundo, os principais accionistas das principais empresas de petróleo e de carvão do planeta. Frederick Merz, político em ascensão na CDU alemã, é o presidente do BlackRock Alemanha desde 2016.

Em 14 de Janeiro de 2020, poucos dias antes da reunião de Davos dedicada às mudanças climáticas, Larry Fink publicou um boletim anual invulgar destinado aos CEO’s corporativos e através do qual tomou o comboio dos investimentos climáticos em grande escala.

A publicação inclui uma carta de orientação para as numerosas empresas que procuram fatias de investimentos do bolo total de sete biliões do BlackRock: “As mudanças climáticas tornaram-se um factor determinante nas perspectivas de longo prazo das empresas”, lê-se na missiva. Lembrando os recentes protestos relacionados com o clima, Fink acrescenta que “a consciencialização está a alterar-se rapidamente e acredito que estamos à beira de uma reformulação fundamental das finanças. A evidência do risco climático está conduzindo os investidores a reavaliar as principais premissas sobre o financiamento actual”.

Considerando que “os riscos climáticos são riscos de investimento”, Fink interroga-se sobre o modo como as questões ambientais poderão ter impacto em economias inteiras. Prevê que haja mudanças nas colocações de capital mais rápidas que as mudanças climáticas.

Como Fink e os seus parceiros irão influir nas alterações dos fluxos de investimentos? O BlackRock poderá direcionar os investimentos em empresas que se adequem ao meio ambiente, “tornando a sustentabilidade parte integrante da constituição do portefólio e da gestão de riscos”. Sugere o “abandono de investimentos que apresentem elevado risco relacionado com a sustentabilidade, designadamente o uso de carvão; lançamento de novos produtos de investimento que evitem combustíveis fósseis; e fortalecimento do compromisso com a sustentabilidade e a transparência das nossas actividades de administração de investimentos”. Traduzindo: se não seguir as recomendações do IPPC (Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas) da ONU e de grupos relacionados, incluindo a McKinsey & Co, o investidor irá perder muito dinheiro.

Como parte da sua demonstração de como são “aconselháveis os nossos investimentos verdes”, Fink sublinha que o fundo BlackRock foi fundador da Task-Force sobre Informações Financeiras Relacionadas com o Clima (TCFD). Lê-se na carta: “A TCFD proporciona uma estrutura valiosa para avaliar e revelar os riscos relacionados com o clima, bem como as questões relacionadas com a governação que são essenciais para geri-los”. 

A TCFD foi criada em 2015 pelo Bank for International Settlements, presidido pelo curador de Davos e então presidente do Banco de Inglaterra, Mark Carney. Em 2016, a TCFD, a City of London Corporation e o governo do Reino Unido criaram a Green Finance Iniciative com o objectivo de canalizar biliões de dólares para investimentos “verdes”. Os banqueiros centrais do Financial Stability Board (decorrente do Grupo dos 20, G20) indicaram 31 pessoas para integrarem a TCFD. Presidida pelo bilionário norte-americano Michael Bloomberg, esta task-force inclui, além do BlackRock, o JP Morgan Chase; o Banco Barclays; HSBC; Swiss Re, a segunda maior resseguradora do mundo; o banco ICBC da China; Tata Steel; petróleos ENI; Dow Chemical; o gigante mineiro BHP; e David Blood da Generation Investment LLC de Al Gore. Observe-se o papel central dos bancos neste dispositivo.

"Padrões fiáveis"

Para garantir ainda mais que o BlackRock e os seus parceiros no mundo dos fundos de biliões de dólares escolhem o investimento certo nas empresas certas, Fink afirma na sua carta: “BlackRock considera que o Sustainability Accouting Standards Board (SASB) fornece um conjunto claro de padrões fiáveis às empresas numa ampla gama de questões sobre informações de sustentabilidade…” Isto seria muito tranquilizador até nos apercebermos de quem são os membros do SASB que garantirão o imprimatur favorável ao clima. Os membros incluem, além do BlackRock e dos fundos Vanguard e Fidelity Investments, o Goldman Sachs, State Street Global, Carlyle Group, Rockefeller Capital Management e vários grandes bancos como o Bank of America e a UBS. O que faz o SASB? De acordo com o seu website: “Desde 2011 trabalhamos em direcção a uma meta ambiciosa de criação de padrões de confiança e sustentabilidade para 77 indústrias”. Portanto, os grupos financeiros que há décadas direccionam os fluxos globais de capital para projectos mineiros, de carvão e petróleo são os mesmos que se tornam árbitros de quais as empresas que se qualificarão para serem abençoadas com os investimentos em “títulos verdes”.

O papel dos bancos centrais

Nos últimos meses, os principais banqueiros centrais do mundo têm vindo a declarar, com alguma surpresa, que as mudanças climáticas são parte essencial “das responsabilidades principais” das instituições, esquecendo-se de questões como a inflação e a estabilidade da moeda. Ninguém se preocupa, porém, em explicar como tudo isso deve funcionar, o que ainda é mais desconcertante.

Em Novembro de 2019, a Reserva Federal (FED) dos Estados Unidos promoveu uma conferência intitulada Economics of Climate Change (A Economia das Mudanças Climáticas). Lael Brainard, presidente da Comissão de Estabilidade Financeira da FED, afirmou que as questões do clima são fundamentais para a política monetária e a estabilidade financeira. Em comentários recentes, o presidente do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, declarou a um jornal do seu país: “Os riscos relacionados com o clima diferem dos outros riscos, pois o seu impacto a relativamente longo prazo significa que os efeitos se farão sentir durante mais tempo que os outros riscos financeiros, o seu impacto é muito menos previsível”. Portanto, acrescentou, “é necessário investigar e analisar minuciosamente o impacto dos riscos relacionados com o clima”. Christine Lagarde, ex-chefe do FMI, afirmou já como presidente do Banco Central Europeu que deseja um papel fundamental das mudanças climáticas na revisão da política do BCE, o que lhe valeu críticas do membro alemão Jens Weidmann. 

Talvez o banqueiro central mais activo nas questões climáticas seja Mark Carney, um dos curadores de Davos, ex-presidente do Banco de Inglaterra e agora consultor de Boris Johnson para o aquecimento global. Em declarações recentes à BBC mencionou alegadas análises sobre fundos de pensões, cujas fontes não citou, que estariam em risco porque as empresas não contemplam riscos associados ao aquecimento global. Carney citou cientistas segundo os quais aumentos de quatro graus Celsius provocam “uma subida de nove metros do nível do mar – afectando 760 milhões de pessoas – ondas de calor, secas abrasadoras e sérios problemas com abastecimento de alimentos”. Coisas realmente assustadoras.

Carney, como já vimos, criou em 2015 a Task-Force de Informações Financeiras Relacionadas com o Clima (TCFD) para “aconselhar investidores, credores e seguradoras sobre os riscos” associados ao clima.

O que está a tornar-se claro é que os recentes impulsos globais por uma acção climática radical têm mais a ver com a justificação de uma grande reorganização da economia global. Em 2010, o chefe do Grupo de Trabalho 3 do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas da ONU, Dr. Otmar Edenhofer, disse a um entrevistador: “…É preciso dizer claramente que redistribuímos, de facto, a riqueza mundial pela política climática. É preciso libertar-nos da ilusão de que a política climática internacional é a política ambiental. Isto nada tem a ver com política ambiental…”

Que melhor a maneira de fazer essa redistribuição do que através dos maiores controladores de dinheiro do mundo, como o BlackRock?

*Consultor de riscos estratégicos, conferencista, especialista em petróleo e geopolítica



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