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GANHOU EVO, GANHOU A BOLÍVIA!

A festa da vitória de Evo Morales em La Paz

2019-10-23

Leonardo Vexell Severo, La Paz; America Latina en Movimiento/O Lado Oculto

Evo Morales foi reeleito presidente da Bolívia e o seu partido, o Movimento para o Socialismo (MAS), conquistou as maiorias absolutas na Câmara dos Deputados e no Senado. A vitória presidencial foi conquistada na primeira volta, pois Morales teve mais de 40% dos votos e uma vantagem superior a 10 pontos percentuais (10,1) sobre o seu principal rival, uma das condições exigidas pelas leis bolivianas. A oposição, que se diz democrática, recusa-se a aceitar os resultados, como acontece normalmente num quadro onde estão sempre presentes as pressões golpistas dos Estados Unidos.

Ao cabo de 14 anos de gestão, Morales obtém 46,8%, uma votação muito importante tendo em conta as manobras desenvolvidas pelas oposições e, inclusivamente, a compra de votos por parte da embaixada dos Estados Unidos durante os últimos dias de campanha.

A Bolívia volta assim a escolher o MAS como primeira força política e o dirigente indígena como seu presidente, para um novo mandato de cinco anos. Carlos Mesa, o antigo presidente direitista, foi o segundo classificado, com 36,7%; o terceiro, contra todos os prognósticos, foi o pastor evangélico coreano Chi Hyung Chung, com 8%, obtidos através de um discurso ultra conservador; o grande derrotado foi Oscar Ortiz, conhecido como “o Bolsonaro de Santa Cruz”, que se ficou pelos 4%.  

Há dois aspectos muito significativos a destacar nestas eleições. Além da importante votação, Evo Morales consegue a maioria absoluta nas duas câmaras parlamentares. O antigo dirigente dos trabalhadores rurais continua a ser o político mais sintonizado com os desejos e as necessidades dos bolivianos comuns, através das nacionalizações, subsídios sociais, defesa da soberania nacional, e também com as preocupações quotidianas dos cidadãos. As questões económicas como a elevação dos rendimentos individuais, o aumento exponencial do consumo e as poupanças também foram cruciais para uma valorização muito positiva da gestão presidencial. Evo Morales continua a ter um bloco sólido de votantes muito fiéis e que asseguram a identidade política dominante no país.

Um “voto útil” anti-Evo

Por outro lado, deve realçar-se a consolidação do voto útil anti-Evo nas oposições. Carlos Mesa, o segundo classificado, captou boa parte do eleitorado fascista de Ortiz. Um facto que já podia observar-se na última sondagem realizada sob patrocínio da Celag. Mesa tinha uma imagem positiva muito baixa (33%) e, no entanto, o seu tecto eleitoral era de 40%. Como se explica esta situação? Porque o voto útil anti-Evo já se sentia muito latente nestas eleições. Quase metade dos eleitores que não estavam dispostos a votar em Evo estavam disponíveis para mudar de candidato com o único objectivo de evitar a sua vitória. Por outras palavras, é como se uma boa parte do espírito de segunda volta estivesse presente já na primeira. O votante mais fundamentalista anti-Evo apoiou o candidato da oposição teoricamente mais bem posicionado. Apesar desta concentração de votos, Carlos Mesa ficou a uma distância considerável do actual presidente.

Quando a democracia não lhes serve…

Há que evitar cair na armadilha segundo a qual os votantes contra Evo formam um bloco monolítico. Existem, pelo menos, dois importantes grupos nessa bolsa de votantes. Um grupo formado por cidadãos com voto mais volátil, menos fiel, talvez menos politizado num sentido partidário e que não estão dispostos a passar “cheques em branco”; e um outro grupo caracterizado por uma identidade política clara anti-Evo, mais guiado pelo ódio, pela discriminação racial, pela pertença a uma classe socioe-conómica mais próxima das orientações neoliberais – e também uma forte componente regionalista, especialmente no Caso de Santa Cruz, onde os Estados Unidos há muito que alimentam tendências secessionistas.

A partir daqui, terminado o período eleitoral a política segue o seu caminho. Os partidos de oposição, que tanto falam em democracia e em democratizar, não reconhecem os resultados, como já vinham afirmando há semanas ou mesmo meses. Com toda a certeza, como já o fez noutras ocasiões, a facção mais anti-Evo forçará acções não democráticas e violentas para continuar a tentar desestabilizar o país. É possível que venham a repetir-se cenas como as vividas durante os primeiros anos dos governos do MAS. A maior capacidade para tentar este objectivo existe em Santa Cruz, onde os temas regionalistas continuam a não estar resolvidos, apesar das múltiplas diligências governamentais. No entanto, há que destacar também que existe uma outra parte de cidadãos que, mesmo não votando em Evo, o que deseja é continuar com a sua vida da maneira mais normal e natural possível.

Do outro lado da disputa está Evo Morales, que consolida uma vitória importante e que, de agora em diante, deverá enfrentar o desafio de desenvolver as transformações económicas, sociais e institucionais que o povo boliviano lhe exige. E, simultaneamente, terá de gerir, no imediato, uma alta tensão política nas ruas e, provavelmente, alguma pressão internacional – pois as manobras norte-americanas não cessam.

Apesar disso, em muito mais de uma ocasião Evo Morales demonstrou que é capaz de ultrapassar fases muito adversas. Fê-lo antes de ser presidente e também durante a sua gestão


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