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DESIGUALDADE RACIAL MINA AS SOCIEDADES

2019-08-24

Jorge Fonseca de Almeida*, especial para O Lado Oculto

Recentemente um relatório da Mckinsey, a mais reputada firma de consultadoria estratégica, veio revelar a extensão da desigualdade racial nos Estados Unidos da América em termos de rendimento, educação e património. 

Em Portugal a desigualdade racial é certamente maior do que nos Estados Unidos, quando pensamos que a comunidade cigana está praticamente excluída do ensino, os negros estão acantonados em bairros sem qualidade habitacional e as minorias racializadas não são reconhecidas em Portugal – para não beneficiarem da protecção de língua, costumes, etc. Pior, em Portugal o Estado recusa-se a recolher os dados estatísticos que permitiriam saber mais detalhadamente a realidade e desenhar políticas para reduzir e eliminar esse fosso racial existente. 

A Mckinsey demonstrou que a economia dos Estados Unidos poderia crescer entre 3 a 5% do seu PIB se o país conseguisse atenuar esse fosso racial.

 O Relatório destaca cinco importantes vectores em que se materializa esse fosso racial. Vejamos:

1. Património Familiar

O património familiar é um dos indicadores mais importantes sobre a situação actual de qualquer pessoa, mas também um poderoso indicador do futuro dos seus descendentes. Uma família sem património ou com um património negligenciável está, obviamente, em piores condições para assegurar as bases em que se vai erguer o destino dos filhos (educação, saúde, etc.) do que o compatriota mais rico.

O fosso entre as famílias brancas e as negras tem vindo a alargar-se nos Estados Unidos. Se no início do século XX esse fosso era de 3, isto é, as famílias brancas dispunham de um património três vezes superior ao das famílias negras, atualmente esse ratio é de sete vezes em termos médios. E a tendência será para continuar a alargar-se, uma vez que os mais ricos podem dar melhor futuro aos seus filhos enquanto os que não têm património ou este é muito baixo não podem assegurar nada aos seus descendentes.

De facto apenas 8% das famílias negras têm património que possa ser deixado aos filhos. Entre os brancos essa percentagem é muito maior.


                                                                        Património Familiar Médio das Famílias

                                                                    de pessoas nascidas entre 1943 e 1951

Um dos bens que mais contribuem para o património familiar é a casa. Mas a casa só constitui um património positivo se for comprada a pronto ou depois de liquidado o empréstimo. Muitas famílias negras vivem em casas arrendadas ou de apoio social, pelo que não terão património imobiliário para legar aos filhos. Acresce que, por serem mais pobres, as famílias negras que compram casa pagam juros mais altos, logo demoram muito mais a repagar os empréstimos, por vezes nunca o conseguindo fazer.

No final, apenas 40% das famílias negras são proprietárias de uma casa, contra 73% das famílias brancas. Em Portugal este fosso é seguramente maior – a percentagem de ciganos com casa própria é muito inferior a 40% - mas não o podemos determinar com rigor porque o Estado português, ao contrário do norte-americano, se recusa a compilar os dados estatísticos.

Vemos como as condições de partida são geradoras de desigualdade nas gerações seguintes, alargando-se o fosso.

2. Rendimento

                                                                      Níveis médios de rendimento das famílias

Não tendo tantas possibilidades em termos educacionais, os negros não acedem aos empregos mais bem pagos. A Mckinsey estima que, no decurso da sua vida, um negro ganha em média menos um milhão de dólares do que um seu compatriota branco. Quanto será esse fosso em Portugal? Bem maior, com toda a certeza, entre uma família branca e uma família cigana.

Este fosso reflecte-se depois em indicadores como taxa de desistência escolar, bairro em que vive, escola que frequenta e tantos outros.

3. Peso da dívida     

Com rendimentos mais baixos, as famílias negras para acederem a certos bens - carro, eletrodomésticos, mobiliário, etc. – têm de recorrer a crédito muito mais frequentemente e em valores superiores. Acresce que, sendo mais pobres e tendo empregos mais precários, oferecem maior risco de incumprimento, pelo que pagam juros muito mais elevados que as famílias brancas.

No final, o peso da dívida é muito superior entre as famílias negras do que entre as brancas.

4. Taxas de encarceramento


As famílias negras têm muito maior probabilidade de verem o elemento masculino da família ser preso e, consequentemente, a mulher ser obrigada a criar os filhos sozinha, apenas com o seu rendimento. Assim, ao contrário das famílias brancas que em geral têm dois rendimentos, muitas famílias negras vivem de apenas um salário. 

As consequências desta situação em termos de acesso a creches, a escolas de línguas, ao desporto, etc. é enorme, limitando muito o desenvolvimento das crianças negras.

A taxa de encarceramento de negros é cinco vezes superior à de brancos nos Estados Unidos. Em Portugal os trabalhos de Joana Gorjão Henriques sugerem que poderá ser ainda pior – apontando-se para 10 vezes mais.

Esta dualidade de critérios é uma das formas mais eficazes de o Estado desestruturar as famílias negras e condenar as crianças a um futuro sem esperança. 

5. Impacto no Produto Interno Bruto

Este fosso racial implica uma redução acentuada do Produto Interno Bruto norte-americano, uma vez que ele acaba por materializar-se em menor consumo interno, que por sua vez significa menor produção, menos empregos e menos investimento.

Assim, nos Estados Unidos a Mckinsey propõe que o Estado tome medidas para a redução do fosso racial, permitindo assim expandir o PIB para o seu valor potencial.

6. Conclusões

A existência de estatísticas detalhadas permite calcular o fosso racial e as suas causas e propor soluções para que seja ultrapassado. A Mkinsey conclui que se nada for feito o mecanismo da desigualdade vai continuar a reproduzir-se, gerando ainda maiores desigualdades raciais.

Entre nós continua a política da avestruz, que não quer ver a realidade para não ter que resolver problemas difíceis mas importantes para o futuro de Portugal.

É preciso continuar a exigir a Governo que recolha estatísticas fiáveis sobre as desigualdades étnico-raciais e que tome medidas para as ultrapassar.

*Economista, MBA


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