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O NORD STREAM 2 E AS AMEAÇAS COLONIAIS

O homem de Trump em Berlim comporta-se como agente do poder colonial

2019-01-19

Finian Cunningham, Strategic Culture/O Lado Oculto

Desta vez o grosseiro embaixador dos Estados Unidos em Berlim pode ter ido longe demais para ser ignorado. O governo alemão qualificou como “provocação” o conteúdo da carta que o diplomata norte-americano enviou a empresas envolvidas no gasoduto Nord Stream 2 advertindo-as da possibilidade de sofrerem sanções dos Estados Unidos.

O governo alemão informou os responsáveis do projecto que “deverão ignorar” as missivas enviadas pelo embaixador Richard Grenell.

Nord Stream 2 é o gasoduto com 1222 quilómetros que está ser implantado nos fundos do Mar Báltico e que reforçará significativamente o envio de gás da Rússia para a Alemanha, país que duplicará a importação de gás natural russo quando o projecto estiver concluído. A administração Trump tem-se oposto continuamente à construção do gasoduto, alegando que o seu funcionamento aumentará a influência política de Moscovo sobre a Europa. O presidente norte-americano vem multiplicando advertências sobre a aplicação de sanções às empresas participantes, designadamente alemãs e austríacas.
Na realidade, os Estados Unidos tentam minar o comércio energético entre a Rússia e a Alemanha com o objectivo de vender gás natural liquefeito de origem norte-americana, um produto que fica muito mais caro à Europa. É assim que o capitalismo norte-americano entende o mercado livre!
As cartas do embaixador Grenell às empresas alemãs são encaradas como uma ameaça sem precedentes à condução de negócios privados. A Embaixada dos Estados Unidos negou que as mensagens incluíssem ameaças, dizendo que apenas continham informações sobre a política norte-americana de imposição de sanções.

É apenas mais uma ingerência

Este é apenas o mais recente episódio polémico envolvendo o diplomata, que já anteriormente fora acusado de violar o protocolo diplomático ao intrometer-se nos assuntos internos da Alemanha. Os meios de comunicação alemães têm acusado Grenell de apoiar uma “mudança de regime” em Berlim através do seu apoio aberto à Alternativa para a Alemanha (AdF), partido de extrema-direita e anti-imigração.
Mal assumiu o seu posto em Berlim, em Maio passado, Richard Grenell provocou uma tempestade política quando “twittou” que as empresas alemãs que fazem negócios com o Irão “deverão encerrar essas operações” ou terão de enfrentar sanções norte-americanas estabelecidas pelo presidente Trump. “Nunca diga ao país anfitrião o que deve fazer se não quiser arranjar problemas”, comentou Wolfgang Ischinger, embaixador da Alemanha em Washington.
Poucas semanas depois, Grenell deu uma entrevista ao canal pró-Trump Breibart News na qual manifestou o desejo de “apoiar outros conservadores na Europa”, frase que foi interpretada como um alento ao AdF, partido que representa um sério desafio ao establishment político em Berlim.
Martin Schulz, dirigente do Partido Social-Democrata (SPD), foi uma das figuras políticas que exigiu a demissão de Grenell. “O que este homem está a fazer é inédito na diplomacia internacional… Comporta-se como um oficial colonial de extrema-direita”, disse Schulz. E acrescentou: “se um embaixador alemão dissesse que estava em Washington para impulsionar os democratas seria imediatamente expulso.”

Uma prática comum de Washington

As intervenções de Grenell nos media sobre política e negócios alemães reresentam uma contravenção das Convenções de Viena de 1954, que estabelecem a neutralidade dos diplomatas em relação às opções políticas das nações anfitriãs. Oficialmente, o papel de um embaixador é fazer discretamente lobby em favor do seu governo, adoptando sempre um perfil apagado.
Obviamente não é a primeira vez que embaixadores e enviados norte-americanos violam a Convenção de Viena nos países anfitriões. Washington costuma utilizar esses postos avançados para fomentar mudanças de regime.
Richard Grenell, porém, ofendeu abertamente estas normas e agiu como um porta-voz descarado de Trump, fazendo eco do desprezo do presidente norte-americano pelo governo alemão da chanceler Angela Merkel. Essa atitude, segundo Der Spiegel, teve como resultado o seu isolamento em Berlim. Merkel “mantém-no à distância” e a maioria dos políticos, com excepção dos associados ao AdF, têm evitado os seus contactos.
A mais recente controvérsia, porém, pode ser a derradeira gota de água para a tolerância de Berlim.
Os media alemães têm lembrado a maneira como Trump terminou com a parceria de comércio transatlântica.
O jornal de negócios Handelsblatt já comentara anteriormente: “Nada nas relações transatlânticas é normal… Berlim apega-se há demasiado tempo à ilusão da normalidade transatlântica… A era dos laços estreitos terminou”.
Além disso, há cada vez mais declarações de políticos alemães e posições nos media defendendo “uma Alemanha e uma Europa estrategicamente autónomas”, livres das políticas de Washington.
Ora os desenvolvimentos nesse sentido estão muito atrasados e a sua necessidade antecede a era Trump. Desde o final da Segunda Guerra Mundial que a Alemanha parece um país ocupado pelo poder militar norte-americano, e subordinado aos objectivos políticos de Washington. O objectivo principal sempre foi o de impedir a Alemanha de desenvolver uma parceria natural com Moscovo, ou como União Soviética ou como Federação Russa.

Desprezo e bullying

O absoluto desprezo pela soberania alemã foi talvez melhor demonstrado não pela administração Trump mas durante a presidência Obama, quando se descobriu que as agências de inteligência norte-americanas escutavam os telefones particulares da chanceler Merkel. Se isto não é arrogância colonial, então o que será?
No entanto, o establishment político e mediático pouco protestou contra essa violação da soberania do seu país e da privacidade da sua dirigente cometida por Washington.
O que Trump e o seu enviado em Berlim fizeram foi manifestar uma arrogância de um nível evidentemente insuportável. Trump tem agredido a Alemanha por causa de “práticas comerciais desleais”, da sua política sobre refugiados, de não cumprir com a contribuição para a NATO; e tem criticado as empresas alemãs por não acatarem a política externa hostil de Washington em relação ao Irão e à Rússia.
Trump, no seu estilo boçal, está simplesmente a impôr a hegemonia dos Estados Unidos existente há muito tempo em relação à Alemanha. E não é uma imagem bonita de se ver. Berlim continua a ser vítima do bullying norte-americano.
O absurdo é que os Estados Unidos e os seus seguidores no interior da NATO têm espumado de raiva durante os últimos dois anos contra supostos e não comprovados comportamentos de países ocidentais. E, no entanto, a realidade gritante é que os Estados Unidos estão a praticar múltiplas interferências através de alguns aliados que são, obviamente, seus vassalos.



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