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WASHINGTON BOMBARDEIA IRAQUE COM IRÃO NA MIRA

As autoridades norte-americanas mandaram evacuar o pessoal da embaixada em Bagdade

2019-12-30

Edward Barnes, Bagdade; Exclusivo O Lado Oculto

Os bombardeamentos realizados nas últimas horas pela Força Aérea dos Estados Unidos contra territórios do Iraque e da Síria militarizam a crise iraquiana e criam uma situação nova no terreno – ainda indefinida – mas na qual está presente a permanente intenção norte-americana-israelita de atingir o Irão. De acordo com a versão dos acontecimentos difundida pela parte militar norte-americana, as forças alvejadas são supostamente “apoiadas por Teerão”, mas integram a coligação que sustenta o governo do Iraque.

Afirmam as fontes militares norte-americanas que os ataques aéreos “precisos e defensivos” foram lançados contra “grupos xiitas apoiados pelo Irão” como resposta à morte de um contratado civil norte-americano resultante de disparos de rockets contra uma base militar iraquiana ocupada por forças militares da coligação internacional “Inherent Resolve”. Este dispositivo de pressão permanente sobre os poderes de decisão iraquianos é constituído por forças dos Estados Unidos e de outros países da NATO – organização que recentemente elevou o estatuto da sua missão no Iraque.

Segundo o Comando Central dos Estados Unidos (CentCom), que abrange o Médio Oriente, os ataques aéreos foram efectuados por aviões F-15 contra cinco supostas instalações da organização xiita Kataeb Hezbollah localizadas em territórios sírio e iraquiano. O facto de se tratar de uma entidade xiita faz com que a propaganda de guerra norte-americana a insira automaticamente entre as organizações “apoiadas pelo Irão”, a exemplo do que acontece no Iémen.

Ainda de acordo com as forças militares dos Estados Unidos, terão sido mortos cerca de duas dezenas e meia de combatentes do grupo e destruídas instalações, equipamentos e infraestruturas, facto que “enfraquece a sua capacidade” para realizar novos ataques. Apesar desse “enfraquecimento, as autoridades norte-americanas decidiram evacuar todo o pessoal da embaixada em Bagdade, a mais importante em todo o mundo, depois de o Kataeb Hezbollah ter ameaçado disparar rockets contra as instalações, situadas na “linha verde” - a zona fortificada da capital iraquiana.

O ataque com rockets atribuído ao Kataeb Hezbollah realizou-se sexta-feira contra uma base iraquiana ocupada pelos Estados Unidos perto de Kirkuk, a principal zona petrolífera iraquiana. Além da morte do contratado civil há a registar ferimentos em quatro militares norte-americanos e dois membros das forças de segurança iraquianas.

Aos bombardeamentos norte-americanos de domingo sucedeu um novo ataque com quatro rockets, desta feita contra a base militar iraquiana de al-Taji, ao norte de Bagdade, também ocupada por forças militares norte-americanas. Não há notícias de danos pessoais.

Militarização da crise iraquiana

O grupo Kataeb Hezbollah é uma facção do movimento Unidades de Mobilização Popular do Iraque (PMU), uma organização político-militar que integra a base parlamentar de apoio do actual governo de coligação iraquiano. Na coligação têm vindo a desenvolver-se posições cada vez mais favoráveis à exigência da retirada das forças militares estrangeiras do país.

Este governo tem estado sob fogo político e diplomático dos Estados Unidos por essa razão; e também por não seguir a linha anti-iraniana estabelecida por Washington e não estar disposto a transformar o Iraque numa base da eventual guerra contra o Irão.

A crise política e social que agita o Iraque tem provocado um agravamento da situação de desestabilização que interessa a Washington, onde os dirigentes do Pentágono estão ansiosos para que se consume uma mudança da orientação de governo em Bagdade.

Não é de excluir, portanto, que por detrás dos genuínos conflitos sociais existentes no país, provocados por uma crise resultante de quase três décadas de guerra e ocupação estrangeira, haja agitadores dando corpo às pretensões norte-americanas.

Os bombardeamentos norte-americanos traduzem uma militarização da crise, uma nova fase de desestabilização para tornar o Iraque mais difícil de governar e, portanto, ainda mais manipulável pelas forças de ocupação.

Embora os bombardeamentos tenham como pretexto os ataques realizados supostamente pelo Kataeb Hezbollah, o recrudescimento de actividades militares norte-americanas e aliadas é muito anterior a estes acontecimentos. A Força Aérea israelita, por exemplo, tem realizado ataques regulares contra o Iraque, tal como contra a Síria, afirmando combater grupos “apoiados pelo Irão”.

O governo do Iraque não se pronunciou ainda oficialmente sobre os acontecimentos. Em privado, porém, fontes governamentais não têm escondido o seu desagrado pelo sucedido. Sabe-se, entretanto, que as forças iraquianas têm vindo a reforçar a segurança em várias bases militares.

O Irão condenou oficialmente o ataque através do ministro dos Negócios Estrangeiros e defendeu “a integridade territorial do Iraque”.

A situação é volátil através do território iraquiano e tudo indica que não fique por aqui, sendo difícil, porém, prever os próximos desenvolvimentos.

O secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, declarou no início de Dezembro que quaisquer “ataques iranianos ou dos seus protegidos” contra bases no Iraque “terão respostas decisivas” de Washington. Resta saber se a “resposta” ficou dada ou o processo apenas começou e tem a ver com um objectivo mais amplo, que é o Irão.

De momento, a crescente ingovernabilidade do Iraque, capaz de conduzir a um golpe de força e à posse de um governo feito em Washington e à margem das instâncias eleitas, é um cenário possível e susceptível de favorecer a criação de condições para que Bagdade deixe de ser um travão à estratégia militar anti Irão dos Estados Unidos e Israel.



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