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NATO PROTEGE O NEGÓCIO COLOSSAL DA DROGA AFEGÃ

Tropas da NATO passeando-se por um campo de papoilas de ópio no Afeganistão

2019-11-09

Michel Chossudovsky, Global Research/O Lado Oculto

A guerra é muito boa para os negócios e o crime organizado: a invasão do Afeganistão pela NATO elevou o comércio de ópio para valores da ordem das muitas centenas de milhares de milhões de dólares, além de ter aumentado o número de adictos de heroína nos Estados Unidos e na União Europeia.

Apesar de o presidente Donald Trump ter anunciado a retirada gradual das tropas norte-americanas do Afeganistão, o comércio de ópio neste país continua a florescer. É protegido pelas forças de ocupação Estados Unidos/NATO e garante uma ligação a interesses financeiros e criminosos muito importantes.

Em 2004, o comércio de heroína com base na cultura de ópio no Afeganistão gerou uma receita global calculada em 90 mil milhões de dólares (81500 milhões de euros). A estimativa foi elaborada com base nas vendas a retalho correspondentes a um abastecimento total da ordem dos 340 mil quilos de heroína pura (equivalentes às 3400 toneladas de produção de ópio no Afeganistão).

Actualmente, uma estimativa aproximada com base nos preços a retalho nos Estados Unidos sugere que o mercado global de heroína está acima dos 700 mil milhões de dólares (mais de 630 mil milhões de euros). Este crescimento de milhares de milhões resulta do aumento significativo do volume de heroína transaccionada em todo o mundo associado a um aumento moderado dos preços das vendas a retalho.

Com base nos dados mais recentes do United Nations Office on Drugs and Crime (Gabinete das Nações Unidas sobre a Droga e o Crime, UNODC), em 2017 a produção de ópio no Afeganistão foi da ordem das nove mil toneladas; após o processamento e a transformação, correspondem a 900 mil quilos de heroína pura.

Com o aumento do consumo de heroína desde 2001, os preços a retalho subiram. Segundo a agência norte-americana DEA, que vigia o tráfico de droga, um grama de heroína pura era vendido por 902 dólares (819 euros) no mercado norte-americano em Dezembro de 2016. 

Isto diz-nos que o negócio da heroína é colossal: estes valores de finais de 2016 equivalem a quase um milhão de dólares por quilo.

O ponto de partida no Afeganistão

No ano de 2000, o governo do Afeganistão formado pelos Talibã incrementou um bem-sucedido programa de erradicação de drogas com apoio das Nações Unidas, apresentado à Assembleia Geral em 12 de Outubro de 2001, apenas uma semana depois do início da invasão Estados Unidos/NATO. Graças à aplicação desse programa, a produção de ópio caíra 94%.

Em 2001, a produção de ópio foi apenas de 185 toneladas, em comparação com as 3300 toneladas no ano anterior.

A guerra lançada pelos Estados Unidos e a Aliança Atlântica contra o Afeganistão serviu para restaurar o comércio ilícito de heroína. O programa de erradicação de drogas lançado anteriormente pelo governo afegão foi revogado. 

Imediatamente após a invasão – em 7 de Outubro de 2001 – e consequente ocupação do Afeganistão, a produção de ópio iniciou a recuperação dos  níveis históricos. De Outubro a Dezembro, os agricultores começaram a replantar a papoila de maneira extensiva.

Segundo o UNODC, desde 2001 a produção afegã de ópio aumentou 50 vezes (em comparação com as 185 toneladas desse ano), atingindo as nove mil toneladas em 2017. E quase triplicou mesmo em relação aos níveis habituais antes do programa de erradicação.

Repercussões na adiccão e consumo 

Desde 2001, o consumo de heroína nos Estados Unidos aumentou mais de 20 vezes. A comunicação social dominante raramente aborda o facto de a oferta global de heroína decorrente da invasão do Afeganistão ter contribuído para a procura ao nível do comércio a retalho.

Antes de 2001 havia 189 mil consumidores de heroína nos Estados Unidos; em 2013 o número crescera para 3,8 milhões, de acordo com um estudo da Escola de Saúde Pública da Universidade de Colúmbia. Extrapolando os números de 2013 poderá afirmar-se, sem grande margem de erro, que os consumidores actuais deverão ultrapassar os quatro milhões.

Em 2001, morreram 1779 cidadãos norte-americanos em consequência de overdose de heroína; em 2016 esse número disparou para 15446 pessoas. Os dados são do Instituto norte-americano sobre o Abuso de Drogas.

“O meu governo está comprometido no combate à epidemia de droga”, declarou, entretanto, o presidente Donald Trump.

Pode garantir-se que muitas vidas teriam sido salvas se os Estados Unidos e os seus aliados na NATO não tivessem invadido e ocupado o Afeganistão em 2001.

De acordo com documentos do UNODC, segundo dados de 2007 o Afeganistão produz 93% dos “opiáceos ilegais de nível não farmacêutico”, designadamente a heroína.

A investigação do UNODC sobre o estado da cultura do ópio no Afeganistão, cujos resultados foram divulgados em Maio de 2018, confirma que as áreas agrícolas para cultura da papoila atingem os 328 mil hectares, com uma produção de ópio superior a nove mil toneladas.

Negócio ao nível do orçamento do Pentágono

Os lucros do fabuloso negócio assim gerado são amplamente recolhidos ao nível dos mercados internacionais grossistas e a retalho de heroína, repercutindo-se num processo de lavagem de dinheiro que envolve instituições bancárias ocidentais, uma situação que não é abordada pelo UNODC de Viena. Trata-se de um mercado global que envolve valores colossais.

O preço do grama de heroína pode variar de um país para outro e também depende da percentagem de heroína pura. Estas circunstâncias não facilitam o processo de cálculo dos volumes do comércio global do produto.

Os preços a retalho da heroína com baixo índice de pureza devem ser convertidos num valor em dólares que corresponda à heroína pura.

A droga vendida nas ruas tem geralmente um índice de pureza baixo. O processo de estimativa requer a transformação dos preços ao nível da rua em preços por grama de heroína pura (PPG).

Uma tonelada de ópio dá origem a 100 quilos de heroína pura. Os preços a retalho de heroína nos Estados Unidos (com baixo índice de pureza) eram de 172 dólares por grama, isto é, 17200 dólares (15600 euros) por quilo, em 2012.

O preço de heroína pura é, portanto, bastante mais elevado.

Em 2016, segundo a DEA, o PPG era de 902 dólares nos Estados Unidos, ou seja, 902 mil dólares (818 600 euros) por quilo.

O caso do Reino Unido

No Reino Unido, ponto de entrada da heroína afegã na União Europeia, o preço a retalho (de acordo com uma estimativa de 2015 publicada pelo jornal Guardian) é consistente com os cálculos da DEA para o mercado norte-americano.

“Um quilo de heroína importada com 25% de pureza pode transformar-se em matéria-prima suficiente para 16 mil doses individuais nas ruas a 10 libras (11,6 euros) – elevando as receitas para 160 mil libras (185 500 euros) por quilo”. Excerto transcrito do Guardian de 20 de Dezembro de 2015.

Uma quantia de 160 mil libras de heroína com 25% de pureza converte-se em 640 mil libras (742 mil euros) de heroína pura.

Mercado global afegão

De acordo com o UNODC, de um total de 9000/9300 toneladas de ópio produzidas globalmente no Afeganistão estão disponíveis de 7600 a 7900 para exportação. 

Tomando como base o valor de 902 mil dólares por quilo (Dezembro de 2016, DEA) e a produção de 790 mil quilos de heroína pura (calculada pelo UNODC), o valor monetário global gerado pelo comércio afegão é 712 580 milhões de dólares (646 700 milhões de euros), um valor equivalente ao orçamento da defesa dos Estados Unidos.

Trata-se, ainda assim, de uma estimativa conservadora. Se o cálculo for baseado na produção total de ópio superior a nove mil toneladas (2017), o valor global ultrapassará os 800 mil milhões de dólares (725 mil milhões de euros).

Em Agosto de 2018, o presidente Trump assinou a “Lei de Autorização de Defesa Nacional”, que estabelece um orçamento do Pentágono de 717 mil milhões de dólares, apenas alguns milhões mais do que o valor conservador calculado para o mercado afegão de heroína resultante da ocupação que a NATO mantém há 18 anos.

Escusado será dizer que o Pentágono – sem mencionar a CIA, que lançou a economia do ópio no Afeganistão no final dos anos setenta – protege esta indústria multimilionária. O produto de tráfico afegão de droga foi inicialmente utilizado para financiar o recrutamento de mercenários da al-Qaida como meio de combate contra a presença soviética no país.



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