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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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A “EXECUÇÃO” DE AL-BAGHDADI, HOLLYWOOD E O RESTO

al-Baghdadi e outros chefes terroristas numa reunião clandestina na Síria com o senador norte-americano John McCain, enviado "informal" da Casa Branca

2019-10-28

Edward Barnes, Damasco; com Reseau Voltaire para O Lado Oculto

No domingo, 27 de Outubro de 2019, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou triunfalmente a “execução” de Abu Bakr al-Baghdadi, califa do Estado Islâmico (Daesh ou Isis). De acordo com a versão oficial, o califa teria sido localizado na região de Idleb (noroeste da Síria) graças a informações recolhidas pelo Iraque. A história, porém, está repleta de mistérios e dados que não encaixam no relato transmitido de Washington.

Sempre de acordo com a narrativa oficial, forças especiais norte-americanas teriam montado a partir de Erbil (capital do Curdistão iraquiano) a “operação Diane Kruger”, designação inspirada no nome de uma jovem alemã que teria sido violada pelo califa. Sete ou oito helicópteros penetraram na Síria: dois pousaram para desembarcar soldados norte-americanos e os outros mantiveram-se em voo para dar cobertura às operações terrestres.

O califa ter-se-ia então embrenhado num labirinto de túneis – construído pela multinacional francesa Lafarge - arrastando consigo três dos filhos para serem usados como “escudos humanos”. Localizado por cães ao serviço do exército norte-americano, Baghdadi imolou-se numa explosão, juntamente com as crianças. Foram mortos também nove dos seus guarda-costas e uma outra criança. Diz-nos a versão oficial que a morte do chefe do Daesh foi confirmada através da análise do ADN dos restos do seu corpo. Não há baixas a deplorar do lado norte-americano.

Acaba aqui esta bela histórica. A América justiceira e plena de força, como sempre.

Misteriosas cumplicidades

Ora a propósito desta super produção hollywoodesca deve dizer-se que um papel de califa só pode ser desempenhado por um descendente directo do profeta Maomé. Este terá nascido em Fallujah, bastião da resistência à ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Foi preso e esteve dez meses nos campos de concentração de Bucca e Adder, onde a CIA e a marinha dos Estados Unidos procederam a experiências de condicionamento de comportamentos.

Ignora-se se Baghdadi terá sido uma das vítimas dessas práticas. Sabe-se, porém, que foi solenemente proclamado califa dez anos mais tarde em Mossul, em Julho de 2014.

Sabe-se também, porque há documentos fotográficos que não deixam quaisquer dúvidas em relação a essa confraternização, que Abu Bakr al-Baghdadi participou numa reunião clandestina realizada no interior da Síria entre vários chefes de grupos terroristas envolvidos na guerra contra este país e o senador norte-americano John McCain. O senador fascista, entretanto falecido, funcionou como um dos enviados “informais” da Casa Branca, onde então habitava Barack Obama, para enquadrar os grupos terroristas “islâmicos” criados e adaptados para levar a cabo o desmantelamento da Síria. McCain desempenhou papel idêntico noutras conspirações, designadamente o golpe de 2014 em Kiev que levou organizações fascistas ao poder na Ucrânia.

O califa leva assim consigo para a grande viagem sem regresso muitos segredos sobre as cumplicidades entre um renomado chefe terrorista e um enviado da Casa Branca, ainda que “informal”.

Um dado integrante na biografia oficial de Baghdadi é que, uma vez entronizado como califa do Daesh, parece não ter desempenhado qualquer tarefa de monta no grupo, a não ser a leitura de alguns comunicados.

O mito de Diana Kruger

Outros factos anteriormente conhecidos também não se encaixam na versão expondo a eficácia das forças especiais norte-americanas, suficientemente corajosas para entrar num país soberano para ir matar um chefe terrorista.

O caso de Diana Kruger, que inspirou o baptismo da operação de domingo, é um deles.

Diana Kruger não foi violada pelo califa. Foi a sua segunda esposa desde Outubro de 2015. Os serviços secretos alemães descrevem-na como uma fanática actuando como directora do departamento do califado responsável pelas mulheres do Daesh, em particular como responsável pela formação das mulheres-suicidas. Consta que está em fuga.

Quanto ao califa, teria vivido escondido na aldeia síria de Barisha, situada no governorato de Idleb, região do noroeste do país onde se mantêm ainda refugiados os grupos terroristas que têm sido “empurrados” pela ofensiva libertadora das tropas de Damasco. 

Idleb é o último bastião de mercenários da al-Qaida e do Daesh. A região está cercada a sul e a leste pelo exército regular sírio e continua protegida pelo exército turco. A aldeia de Barisha situa-se mesmo na fronteira com a Turquia, o que equivale a dizer que al-Baghdadi esteve protegido pelas forças armadas da Turquia que, como se sabe, formam o segundo mais vasto contingente da NATO.

Misteriosos agradecimentos

Voltando à narrativa oficial da epopeia norte-americana de domingo, ela diz-nos que o presidente Trump agradeceu a assistência que foi dada pela Rússia, a Turquia, a Síria, o Iraque e os curdos sírios. Desconhece-se, até ao momento, o papel desempenhado pelos países e forças citados pelo presidente dos Estados Unidos, ficando para a posteridade a circunstância de ser a primeira vez, em muito tempo, que Washington agradece qualquer coisa a Damasco.

Em Washington, um pouco através do Médio Oriente e mesmo entre os aliados europeus dos Estados Unidos há quem sugira que esta narrativa de um feito anti-terrorista tendo como comandante em chefe o presidente-candidato norte-americano pode ter algumas conotações eleitoralistas.

A verdade é que muitos factos não são compatíveis com a história divulgada oficialmente. Por exemplo, o Estado-Maior da Rússia, potência presente legalmente em território sírio, fez saber que os seus radares não detectaram a deslocação de qualquer esquadrilha de helicópteros na região nem sábado, nem domingo, nem noutro dia da semana. Os militares russos afirmam igualmente que desconhecem o motivo pelo qual são merecedores dos agradecimentos da Casa Branca.

Cada presidente norte-americano vai somando os seus feitos através de histórias mal contadas: Obama teve a sua com Ussama bin Laden, lançado ao mar quando o cadáver ainda não tinha arrefecido; Trump segue-lhe as pisadas com al-Baghdadi, reduzido a pó por uma bomba.



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