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EUROPA E EUA FINANCIAM DESTRUIÇÃO DA AMAZÓNIA

2019-08-31

Marques Casara, Brasildefato/O Lado Oculto

O inferno, caso exista, está repleto de presidentes e primeiros-ministros bem-intencionados, mas que, em algum momento da vida, defenderam, com sincera emoção, a existência de unicórnios, fadas e duendes. É mais ou menos o que acontece actualmente quando o assunto é o comportamento de países europeus em relação à desflorestação e às queimadas em território brasileiro. 

Bolsonaro fez de tudo para que isso acontecesse. A nomeação de Ricardo Salles para o Meio Ambiente e o desmantelamento das estruturas de fiscalização já vinham sinalizando que as desflorestações e as queimadas sairiam do controle. 

Nos últimos dias, após atacar violentamente dirigentes europeus que reclamavam contra a política ambiental brasileira, Bolsonaro deixou a bola a saltitar para o presidente de França. Cheio de problemas internos, um enfraquecido Emmanuel Macron percebeu a oportunidade e fez o golo com precisão. Levantou arquibancadas nos quatro cantos do globo e tornou-se, em 15 minutos, a mais nova celebridade ambiental do planeta. Bolsonaro está até agora entontecido pela rapidez dos acontecimentos.

Tudo seria lindo e maravilhoso se fosse assim tão simples: países estrangeiros ajudando o Brasil a desmascarar Bolsonaro, o novo malvado favorito do planeta, com seu séquito de minions a destruir o “pulmão do mundo”. Mas esta história, infelizmente, é mais complexa. A União Europeia e os Estados Unidos também têm as mãos sujas de sangue e de fuligem. 

Alimentos e siderurgia

Grandes empresas europeias e norte-americanas financiam a desflorestação. O Fundo Amazónia representa uns simples trocados quando comparado com o que essas corporações lucram com a devastação das florestas brasileiras. E não apenas na Amazónia. Hoje, o Cerrado ou savana brasileira é o bioma que mais perde cobertura florestal. Dois sectores são os principais responsáveis por essa tragédia: alimentos e siderurgia. As maiores empresas globais de alimentos financiam fazendeiros brasileiros que efectuam desmatamentos para criar gado e plantar soja. 

Boa parte da madeira retirada transforma-se em carvão e é transportada para siderurgias no Centro-Oeste, Sudeste e Norte do país. Com esse carvão, as siderúrgicas produzem ferro fundido, usado no fabrico de aço através do mundo. Este produto tem, na sua composição, carvão vegetal retirado ilegalmente de matas nativas.

Automóveis, aviões, computadores e telefones móveis têm nas suas componentes as marcas do desmatamento da Amazónia e da savana brasileira. 

No sector alimentar, a soja e a carne brasileira são vendidas em centenas de países, muitas vezes graças às operações comerciais europeias e norte-americanas que financiam os fazendeiros brasileiros autores da desflorestação.

Recentemente, uma dessas empresas, a Cargill, a maior companhia do mundo de capital fechado, anunciou que não pretende cumprir a promessa de conter a desflorestação provocada pelos seus negócios no Brasil. 

Outro gigante do sector alimentar, a empresa suíça Nestlé, é bem conhecida pelos vínculos com actividades predatórias, incluindo a exploração de crianças e adolescentes na cadeia produtiva do chocolate. 

Coca-Cola, Pepsico, Bunge e uma interminável lista de multinacionais com sedes no Hemisfério Norte já tiveram suas cadeias produtivas mapeadas. Foi então reconhecida a existência de ligações concretas a práticas danosas do meio ambiente. 

A falácia da “soberania”

É óptimo que os países europeus ajudem o Brasil a desmascarar o protoditador Bolsonaro. Farão um imenso favor à democracia, aos direitos humanos e ao meio ambiente. Mas esses países também precisam de parar de financiar o desmatamento da Amazónia e do Cerrado, que acontece, em grande medida, porque as multinacionais não querem identificar com eficiência as suas cadeias produtivas.  

Por parte do governo brasileiro tudo está para ser feito ou refeito, dado o estrago que foi feito desde a posse do actual presidente da República. Não são os trocos que pingam do Fundo Amazónia que irão resolver a questão. Assim como também não será o falacioso discurso da “soberania nacional”, que Bolsonaro desenterrou da ideologia militar dos anos setenta. O que Bolsonaro quer é entregar a Amazónia. Ele é o maior inimigo da soberania nacional. 

Este cenário de terra queimada só mudará com um processo de gestão participativa nas regiões amazónicas e no Cerrado, com o cumprimento da legislação ambiental, a participação das comunidades locais nos processos decisórios e sem a influência desmedida do agronegócio e dos seus financiadores, as multinacionais sediadas na Europa e nos Estados Unidos.

As queimadas e o desmatamento da Amazónia e no Cerrado têm, há décadas, as impressões digitais de grandes corporações multinacionais com sede nos países que se dizem agora chocados com o avanço da depredação. 

Neste contexto, causa espanto o comportamento dos meios de comunicação de massa, que seguem a lógica do século passado: protecção total aos anunciantes, às receitas de publicidade. Não fazem a principal pergunta: quem beneficia com a desflorestação? 

Não a fazem porque sabem quem mexe os cordelinhos no mercado publicitário. Multinacionais do sector de alimentos (anunciantes), siderúrgicas vinculadas a empresas de montagem de veículos e equipamentos eletroeletrónicos (anunciantes) injectam milhões e milhões nas contas correntes dos fazendeiros que derrubam as matas e fazem arder o Cerrado e a Amazónia. 


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