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TER UM “FORT TRUMP” SAI MUITO CARO À POLÓNIA

Os Estados Unidos não têm precisado de uma base militar para terem as suas tropas na Polónia

2019-06-08

Louise Nyman, Varsóvia; com South Front

As autoridades da Polónia estão obcecadas com a instalação de uma base militar norte-americana no país, o já designado “Fort Trump”; porém, são os responsáveis norte-americanos que não parecem ter pressa em dar esse passo, enquanto pressionam Varsóvia com exigências de comunidades judaicas tendo Israel por detrás.

Além disso, periodicamente correm informações segundo as quais Washington decide colocar novas exigências aos aliados polacos antes de se disponibilizar para iniciar a construção da base.

No início de Fevereiro deste ano, a comunicação social polaca noticiou que a embaixadora norte-americana em Varsóvia, Georgette Mosbacher, estava a pressionar os dirigentes polacos para que estes submetam os arquivos do Instituto Nacional do Holocausto na Polónia aos Estados Unidos, para publicação; esta seria a moeda de troca para o estabelecimento da base militar. Apesar de a embaixadora ter negado a informação, a história teve grande impacto e provocou enorme indignação na sociedade polaca. E numerosos factos vieram demonstrar que o assunto, afinal, tem substância.

A publicação Washington Free Beacon informou, entretanto, que o Congresso dos Estados Unidos está a considerar uma série de iniciativas no sentido de ajudar a administração Trump a exigir da Polónia que resolva os pedidos de devolução de propriedades apresentados por algumas organizações judaicas. Isso seria uma pré-condição para a construção da base militar norte-americana em território polaco.

Há cerca de um ano, Donald Trump assinou a Lei Nº 477 (“Justiça para os sobreviventes que ficaram sem compensações”) que prevê a devolução de propriedades a sobreviventes do Holocausto e seus descendentes, providenciando o governo dos Estados Unidos o apoio a essas reivindicações. A medida enquadra-se na sintonização total existente entre a actual administração de Washington, o governo de Israel e os lobbies judaicos nos Estados Unidos

Segundo o trabalho publicado pelo Washington Free Bacon, as negociações entre a Polónia e os Estados Unidos para construção da base militar em território polaco estão em andamento, com o objectivo de “travar a ameaça representada pela Rússia e o Irão”. Neste contexto, acrescenta a publicação, “muitos membros do Congresso e os principais representantes da comunidade judaica estão a fazer lobby nos bastidores” para tirar partido da obsessão do governo polaco com a base militar e conseguirem assim que as suas exigências sejam atendidas.

Os responsáveis polacos, porém, protestam contra tais exigências afirmando que o povo polaco também foi vítima do nazismo, especialmente os milhões de judeus polacos enviados para os campos de morte.

Um contexto de oportunidade

Ainda de acordo com a mesma publicação norte-americana, uma parte dos legisladores do Congresso norte-americano vêem nas negociações sobre o “Fort Trump” a oportunidade de exercerem pressão sobre a Polónia “para que finalmente resolva a questão das devoluções”.

O próprio Pompeo, que se define como “um cristão sionista”, terá abordado o assunto várias vezes em reuniões de negociação com Varsóvia, correspondendo assim aos interesses de círculos judaicos. De acordo com fontes do Congresso e da comunidade judaica nos Estados Unidos, as negociações sobre a base militar deveriam mesmo ser bloqueadas até resolução dos pedidos de devolução.

Terá havido até uma carta do secretário de Estado e da Casa Branca aos congressistas de Washington encorajando-os a exigir da Polónia a restituição das supostas propriedades judaicas. Uma versão da carta chegou ao poder de meios de comunicação: nela Pompeu afirma que a Polónia tem rejeitado repetidamente os apelos à resolução da questão.

“Fontes da comunidade judaica” sob cobertura de anonimato afirmam que “o Congresso está preocupado com a intransigência da Polónia”. Depois de algumas afirmações veladas segundo as quais a situação pode comprometer as relações entre Washington e Varsóvia, as mesmas fontes acrescentaram: “se os polacos não quiserem ouvir os judeus serão forçados a ouvir os norte-americanos”.

Governo tenta desvalorizar

O primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, argumenta que a questão das indemnizações já foi solucionada, pelo que a Polónia não pretende proceder a qualquer outra forma de restituição porque os polacos foram as principais vítimas da Segunda Guerra Mundial.

Os ecos da polémica, contudo, provocam agitação na sociedade polaca.

Depois de perguntar ao governo se é verdade que existe uma interligação entre a construção da base militar e as devoluções das supostas propriedades judaicas, o dirigente do Partido Popular da Polónia, Vladyslaw Kosiniak-Kamysz, afirmou que “não pedimos nada a ninguém e não vamos pagar qualquer reclamação porque tudo o que havia a resolver já foi resolvido; a Polónia sofreu pesadas perdas durante a Segunda Guerra Mundial”.

Segundo o vice-presidente do partido de direita Kukis 15, Tomasz Rzymkowski, o modo com os Estados Unidos estão a abordar estes assuntos exige uma “reavaliação de urgência” da questão de “Fort Trump”. “Trezentos mil milhões de dólares é uma soma que representa quatro vezes o orçamento de Estado polaco”, disse. “Com esse dinheiro poderíamos resolver a questão da nossa segurança de uma maneira diferente e até mesmo contratar um exército russo completo. Se o lado norte-americano nos trata assim, então devemos interrogar-nos se isto vale a pena. Ao longo da história da Polónia não me lembro de qualquer dos nossos aliados ter exigido tal pagamento por apoio militar. Será que a situação internacional exige que nos endividemos por várias gerações?”

A culpa “é da Rússia”

Oficialmente, os círculos governamentais e pró-governamentais de Varsóvia, incluindo a comunicação social, defendem a tese de que não existe ligação entre o “Fort Trump” e as compensações por propriedades judaicas perdidas durante o Holocausto.

O ministro da Defesa, Mariusz Blaszczak, acusa a oposição de “tentar ligar a lei norte-americana com as negociações, em detrimento dos interesses polacos”.

A comunicação pró-governamental – num país que pôs em vigor a censura – vê “a mão russa” na situação.

“Esta é uma operação poderosa de Moscovo (…). Há uma participação muito empenhada do lado russo. O Kremlin procura que o assunto se espalhe o mais rapidamente possível”, afirmou Momasz Sakevich, editor-chefe do Gazeta Polska.

Segundo esta versão, o Kremlin está a fazer todos os esforços para impedir a construção de “Fort Trump”:

“Os ecologistas fazem soar o alarme contra o corte de árvores por causa de ‘Fort Trump’. Velhos generais repetem as alegações sobre uma desnecessária irritação da Rússia. Corre a versão de que, com a ajuda dos Estados Unidos, os judeus irão roubar o país. Quando o Kremlin perde influência na Polónia lança os seus instrumentos de pressão, desde agentes a tempo integral até idiotas ingénuos e úteis”, escreve a Gazeta Polska.

O aparecimento em cena de Donald Trump veio provocar um verdadeiro “renascimento” das relações entre Washington e Varsóvia; porém, parece que a política da administração de colocar os interesses israelitas à frente de tudo está a pôr em risco o trabalho já feito.


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