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O BRICS ESTÁ BEM VIVO, APESAR DE BOLSONARO

Os dirigentes do BRICS em Brasília

2019-11-22

A cimeira dos BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – realizada em Brasília revelou que o grupo está vivo, apesar das mudanças no Brasil e do enfeudamento total do país aos Estados Unidos. O pragmatismo russo e chinês, aproveitando as oportunidades para continuar a abrir espaços económicos onde a crise neoliberal deixa o seu rasto, sobrepõe-se à desafinação política e consegue convergências de interesses aparentemente improváveis.

Marcelo Zero, Brasília

A recente Cimeira do BRICS em Brasília sinalizou uma clara mudança de rumo na recente geopolítica do Brasil. 

Em vez das declarações altissonantes olavistas (de Olavo Carvalho, “filósofo” oficial do fascismo bolsonarista) em defesa da Civilização Ocidental e do Messias Trump e contra o “globalismo” e o “marxismo cultural”, o que se viu foi o reconhecimento pragmático das lideranças da China, da Rússia, do próprio BRICS. 

Bolsonaro, o enamorado de Trump, teve de curvar-se à realidade e chegou até mesmo a pedir desculpas à China. Pode tê-lo feito a contragosto, com sentimento de culpa pela traição ao ídolo. Mas fê-lo. Melhor: foi obrigado a fazê-lo.

É evidente que tal mudança não veio das cabeças ocas de Bolsonaro e Ernesto Araújo (ministro dos Negócios Estrangeiros), que enxergam o mundo com as lentes distorcidas e terraplanistas providas por Olavo de Carvalho e Steve Bannon. 

A mudança veio impulsionada pelos interesses objectivos do agronegócio e económicos de um modo geral, representados no Ministério da Agricultura e no Ministério da Economia, que sabem bem que, hoje dia, a China é mais importante para o Brasil do que os Estados Unidos. O Brasil exporta mais do dobro para a China do que para os EUA e tem com os asiáticos um superávit dez vezes maior do que com os EUA. Os chineses também investem bem mais no Brasil. É uma questão matemática simples. 

Uma questão racional

Para quem observa o mundo com um mínimo de racionalidade esta mudança era esperada, praticamente inexorável. Por quê?

Por que não há registo, na história da humanidade, de um império que tenha podido expandir-se e manter-se sem uma agressiva e consistente política de expansão de seu domínio económico. 

Do Império Romano ao Império Britânico, sempre que as bases económicas da dominação se fragilizaram ou ruíram, os impérios ruíram ou encolheram. 

Não há império que possa manter-se apenas com pressão política e militar. 

Pois bem, a geoestratégia da administração Trump tem uma inconsistência fatal. Os EUA pretendem fazer a “grande disputa pelo poder mundial com China e Rússia”, mas, ao mesmo tempo, vivem um período de forte proteccionismo, o qual implica congelamento, fragilização ou encolhimento de sua presença económica no mundo. 

Trump não quer saber de livre comércio ou de expansão económica internacional. Não quer saber de novos acordos de livre comércio e pretende rever os já existentes. Também quer obrigar as grandes empresas norte-americanas a deixarem de fazer grandes investimentos no mundo, mas sim voltar a investir no mercado interno dos EUA. É o America First. 

Noutra época e com outra administração, os Estados Unidos teriam aproveitado um governo entreguista como o de Bolsonaro para correr a celebrar acordos de livre comércio e fazer investimentos facilitados em áreas estratégicas. À excepção da Embraer, não o fizeram. Sequer apoiaram a revindicação do Brasil de entrar na OCDE. Não era do seu interesse. Provavelmente, Trump e Bannon acharam que bastaria a medieval ideologia olavista, o amor de Bolsonaro e alguma aliança militar para assegurar o domínio do Brasil. Quebraram a cara. 

A locomotiva da economia real

Em contraste, a China pratica, há bastante tempo, uma agressiva política  de forte expansão da sua presença económica no mundo. No princípio, essa expansão era basicamente comercial, mas depois alastrou para os investimentos e, agora, também para área financeira, inclusive com o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS. A iniciativa da Nova Rota da Seda (Cintura e Estrada, ICE) é uma demonstração dessa expansão avassaladora. Num mundo capitalista em crise permanente, devorado pelo capital financeiro, a China é a grande locomotiva da economia real. 

No Brasil, a China, aproveitando-se da crise e da provocada fragilização do BNDES, que liquidou a única fonte de financiamento pesado de longo prazo, vai entrar com tudo para financiar grandes projectos de infraestruturas. A China tende a ser, assim, a grande financiadora do desenvolvimento brasileiro. Os EUA, proteccionistas e nacionalistas, voltados para o America First, não vão competir com os chineses.  O FMI e o Banco Mundial também não vão competir com os bancos chineses.

Não deixa de ser uma grande ironia da História. A China, que durante muito tempo esteve voltada para si mesma, agora tende a ocupar o espaço vazio deixado pelos Estados Unidos e aliados. 

Gatos pretos, gatos brancos

Até o século XVI, a China era o principal país do mundo, mas, com a sua introspecção económica e política, não disputou a hegemonia geoeconómica e geopolítica mundial com as emergentes potências europeias. Pagou um preço muito caro. Foi invadida, subjugada e humilhada pela Grã-Bretanha e, mais tarde, também pelo Japão. 

Aprendeu a lição e não cometerá o mesmo erro. Vem para a disputa e vem para ganhar.

Claro está que os EUA continuarão a ser, por muito tempo, um player muito relevante, especialmente na América Latina. Mas, a não ser que haja uma mudança substancial na geoestratégia incongruente e inconsistente adoptada por Trump, eles tendem a encolher; e a China e aliados, como a Rússia, tendem a crescer na sua presença no mundo.

Para o Brasil e outros países a ascensão da China tem uma grande vantagem: apoia-se num pragmatismo absoluto e desenvolve-se sem impôr condições políticas e ideológicas. Os gatos podem ser pretos ou brancos, podem ser o Lula ou o Bolsonaro. Desde que se disponham a caçar os ratos, está tudo bem. 

Para os chineses, o mercado em si é uma entidade politicamente neutra. Eles definem seu sistema como um “socialismo de mercado”. Não é capitalismo porque lá quem manda não são os capitalistas, mas sim o Estado, que usa os mecanismos de mercado para implantar o socialismo. Pelo menos, essa é a tese chinesa. Agora, se o mercado brasileiro vai funcionar para toda população ou apenas para uma minoria, isso é um problema do Brasil. Eles não costumam interferir na política interna dos países, como os EUA sempre fizeram e fazem. 

Contudo, como bem observa Paulo Nogueira Batista Júnior, o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Não pode ser dependente de país algum. É muito grande para tanto. 

Do oito ao oitenta

A China, que era, até o início dos anos 80, um país muito pobre, com uma indústria bem menos relevante que a brasileira, tornou-se o que é hoje porque recusou-se a ser dependente. Recusou-se a ser quintal. Criou um modelo que exige joint ventures e parcerias com investidores e países estrangeiros. Usou o mercado a seu favor. 

Já Guedes (ministro das Finanças), o ultraneoliberal pinochetista, ficou tão empolgado com a oferta chinesa de disponibilizar 100 mil milhões de dólares para investimentos no Brasil que logo propôs um acordo de livre comércio com a China. Guedes é um ideólogo extremado do neoliberalismo, não um economista pragmático, com os pés na realidade, como os chineses. Se fosse, saberia que um acordo desse tipo com a China acabaria de vez com o que sobrou da indústria brasileira. 

Mas isso mostra a diferença abissal entre o pensamento estratégico da China e a total ausência de pensamento no Brasil de Bolsonaro. Os chineses pensam o mundo daqui a 50, 100 anos. Os bolsonaristas não conseguem sequer pensar o mundo de hoje.

Vivem na terra plana do curto prazo. 

Com China ou com os EUA, o Brasil vai precisar de um novo governo para voltar a ser soberano e para usar o mercado em benefício de toda a população. 

Creio que a maioria já percebeu isso. O resto vai terminar seus dias lendo Olavo de Carvalho. 


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