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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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TRUMP E BIDEN NO ATOLEIRO DE KIEV

Os dois principais candidatos às próximas eleições norte-americanas arrastam-se no atoleiro da Ucrânia "democratizada"

2019-09-29

Finian Cunningham, Strategic Culture; adaptação O Lado Oculto

Depois de o episódio “Russiagate” se ter revelado “o escândalo político mais fraudulento da história americana”, segundo o professor Stephen Cohen, da Universidade de Princeton, emerge agora um novo caso, o “Ucrâniagate”.

O presidente Donald Trump está a ser acusado de abusar dos poderes para pressionar o seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, a mandar investigar as actividades corruptas em território da Ucrânia do ex-presidente de Obama, Joe Biden, principal candidato do Partido Democrático às eleições presidenciais de 2020.

Mais grave ainda, Trump é igualmente acusado de reter 250 milhões de dólares de “ajuda militar” à Ucrânia como forma de pressionar as autoridades de Kiev a investigar as relações de Biden com a Ucrânia quando no desempenho do cargo de vice-presidente dos Estados Unidos, durante a administração de Barack Obama. O actual presidente incorre, desta maneira, na eventualidade de uma acusação por extorsão.

Os opositores políticos democráticos e a comunicação social anti-Trump encontram neste facto mais uma oportunidade para reforçarem o pedido de impeachment do presidente em funções. Acreditam que Donald Trump ultrapassou claramente a linha vermelha da criminalidade tentando que um país estrangeiro interfira nas eleições norte-americanas prejudicando um candidato presidencial.

Trump, por seu lado, nega que a conversa telefónica mantida com o presidente ucraniano tenha sido imprópria. Diz que telefonou a Zelensky em Julho para lhe transmitir felicitações por ter sido eleito, mas admite que mencionou o nome de Biden no contexto da notória cultura de corrupção existente no mundo dos negócios na Ucrânia. 

A febre do “Russiagate”

O presidente norte-americano considera que Joe Biden deve ser investigado por um possível conflito de interesses e de abuso das funções de vice-presidente ao ter desenvolvido esforços para integrar o seu filho, Hunter Biden, num alto cargo numa empresa ucraniana.

O telefonema da Casa Branca para a Ucrânia tornou-se notícia na semana passada quando um oficial dos serviços secretos dos Estados Unidos confessou ter ouvido indevidamente uma conversa do presidente fazendo “uma promessa a um dirigente estrangeiro”, cuja identidade não foi divulgada. Tanto bastou para que a comunidade mediática norte-americana tivesse começado a especular que se tratava do presidente russo, Vladimir Putin. A ânsia de apontar o dedo a Putin demonstra que a febre do “Russiagate” ainda é virulenta no establishment político dos Estados Unidos. Isto acontece apesar de a narrativa do conluio russo nas eleições norte-americanas de 2016 ter entrado em colapso no início deste ano quando a “investigação russa”, conduzida pelo procurador Robert Mueller, fracassou por total falta de provas.

Ora o telefonema de Trump não foi para Putin mas para Zelensky. De modo que os políticos democráticos e os media anti-Trump estão agora novamente muito entusiasmados com a possibilidade de o “Ucrâniagate” vir substituir o “Russiagate”.

Joe & Hunter nos negócios do gás

O problema é que o tiro desta conspiração alternativa pode sair pela culatra tanto a Trump como aos seus adversários. A obsessão em tentar o impeachment do actual presidente usando também o caso do telefonema para Zelensky é susceptível, por outro lado, de levantar questões legítimas e muito sérias sobre as actividades de Joe Biden na Ucrânia. Os dois principais candidatos à presidência norte-americana em 2020 estão assim presos numa espécie de “teia ucraniana” – aliás iniciada com o envolvimento directo no golpe de Estado ilegítimo em Kiev, no ano de 2014.

Em Março de 2014, o filho de Biden, Hunter Biden, foi expulso da Reserva da Marinha dos Estados Unidos devido à sua dependência de cocaína. Logo a seguir, um mês depois, foi colocado no Conselho de Administração de uma empresa de gás natural da Ucrânia, a Burisma Holdings. A colocação processou-se apenas algumas semanas depois de o governo Obama e os seus aliados europeus terem apoiado um golpe ilegal em Kiev contra o presidente eleito, Viktor Yanukovych.

O vice-presidente norte-americano, Joe Biden, foi o líder do envolvimento dos Estados Unidos no golpe e organizou depois o apoio financeiro e militar ao novo regime, no qual pontifica uma forte componente nazi. Biden chegou a ufanar-se de ter sido ele a informar pessoalmente Yanukovych de que “o jogo tinha acabado” e que seria melhor deixar a cidade em virtude dos tumultos nas ruas, apoiados pela CIA desde Fevereiro de 2014. “Ele tinha um dólar a menos e um dia de atraso”, brincou Biden a propósito da situação do presidente deposto.

A nomeação do filho de Biden, devidamente branqueado, para um emprego como testa de ferro na Ucrânia deveria ter merecido intenso escrutínio e investigação por parte da comunicação social norte-americana. Mas isso não aconteceu.

Em 2016, o procurador-geral da Ucrânia, Viktor Shokin, iniciou a investigação de alegados casos de corrupção e evasão fiscal em várias empresas, entre elas a Burisma. Então, em Maio desse ano, o vice-presidente Joe Biden resolveu intervir pedindo a demissão do procurador-geral. Para o efeito, Biden ameaçou reter um empréstimo financeiro norte-americano de mil milhões de dólares no caso de o promotor não ser destituído. Ele estava no cargo há muito pouco tempo e a investigação à empresa de gás Burisma foi abandonada.

Em termos teóricos, o agora principal candidato democrático às eleições norte-americanas de 2020 pode ver diminuídas as possibilidades de vitória se as investigações e os desenvolvimentos do “Ucrâniagate” forem aprofundados. O dilema entre os democratas é que quanto mais tentarem embaraçar Trump por causa do seu telefonema para Zelensky mais poderá vir a saber-se sobre os casos de corrupção e abuso de poder de Biden na Ucrânia, para benefício dos interesses da sua família.

Cada um com seus esqueletos

O senador Lindsay Graham, membro da Comissão de Justiça do Senado, defendeu imediatamente a abertura de uma investigação sobre a conduta de Joe Biden na Ucrânia. “Joe Biden disse que toda a gente se inteirou do caso e não encontrou nada”, disse Graham à Fox News. “Quem é toda a gente? Tanto quanto sabemos, ninguém prestou atenção ao que faziam os Biden na Ucrânia”.

Segundo o senador republicano, “há muito fumo em torno do caso; houve um relacionamento inapropriado entre a família do vice-presidente e o mundo dos negócios na Ucrânia? Não sei. O que sei é que alguém, que não eu, precisa de observar o assunto e não confio nos media para chegar ao fundo do caso”.

De onde se conclui que o “Ucrâniagate” também poderá tornar-se bastante perturbador para os democratas. Porque existem provas de que foi o regime de Kiev, apoiado pelos Estados Unidos, quem ajudou a formar o lamaçal político envolvendo Paul Manafort, o ex-responsável de campanha de Trump. Este enfrenta uma pena de prisão por fraudes e infracções fiscais detectadas pela investigação de Mueller. No entanto, Mueller não encontrou qualquer ligação entre Manafort e uma “campanha de influência do Kremlin”, como foi especulado. Paul Manafort trabalhara anteriormente como assessor político do presidente ucraniano Yanukovych e, por isso, foi encarado como um ponto fraco para Trump. Será que o “Russiagate” foi sempre ucraniano sob todos os pontos de vista?

Além do potencial conflito de interesses de Biden na Ucrânia, este país pode tornar-se, afinal, uma chave demonstrando que toda a operação falhada do “Russiagate” foi montada pelos democráticos, por agentes do regime de Kiev e inimigos de Trump nos serviços secretos norte-americanos.

O “Ucrâniagate” tem, por isso, muitos mais esqueletos políticos para sair do armário. Esqueletos estes que poderão assombrar Trump e também os democráticos e os seus apoiantes nos serviços secretos e na comunicação social.



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