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GUERRA DO IMPÉRIO À HUAWEI OU O TIRO PELA CULATRA

2019-06-02

Oscar Ugarteche, Armando Negrete, Larry Vargas, Alfredo Ocampo, America Latina em Movimiento/O Lado Oculto

Em 15 de Maio de 2019, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto invocando a Lei de Poderes Económicos de Emergência Internacional e proibiu o comércio com a empresa chinesa Huawei. Em consequência, o Gabinete de Indústria e Segurança dos Estados Unidos (BIS) acrescentou a Huawei Technologies à lista de entidades censuradas, conhecida como a Lista Negra. A BIS incluiu 68 sucursais da Huawei instaladas em 26 países: Bélgica, Brasil, Bolívia, Birmânia, Canadá, China, Chile, Egipto, Alemanha, Hong-Kong, Jamaica, Japão, Jordânia, Líbano, Madagáscar, Holanda, Omã, Paquistão, Paraguai, Qatar, Singapura, Sri Lanka, Suíça, Taiwan, Reino Unido e Vietname. O governo norte-americano ataca a Huawei como empresa em todo o mundo e de maneira inédita. A pergunta é: por quê tanta sanha? Tentaremos abordar as razões da ira e os seus efeitos sobre a empresa; e também como fica a economia dos Estados Unidos devido a esta moderna guerra contra uma única empresa utilizando toda uma bateria de comércio internacional com uma única finalidade: fazer falir a Huawei e enviar os seus donos para a prisão.

A primeira questão a assinalar é que a normativa da BIS provoca desde logo um efeito interno nos Estados Unidos, que fabrica com marca registada um conjunto de peças e software norte-americanos através de empresas como Google, Qualcomm, Broadcom e Intel, tal como a empresa japonesa Panasonic e, recentemente, o fabricante de chips britânico Arm, empresas estas que foram acrescentadas às restrições contra a Huawei. Com esta medida, os Estados Unidos tentam proteger as suas cadeias de abastecimento e de tecnologias de informação. O único problema é que os produtos genéricos dos que são fabricados por estas empresas norte-americanas estão disponíveis na Ásia, de maneira semelhante ao que acontece com a indústria farmacêutica.

A caminho da falência?

A medida põe em evidência a hostilidade dos Estados Unidos perante os avanços da China como provedora de rede móvel mundial 5G. A ambição norte-americana é que seja a sua empresa AT&T a ficar com a rede mundial 5G. Com a Huawei na frente, essa possibilidade desapareceu. Os Estados Unidos boicotaram sistematicamente a 5G enviando missões, desde Agosto de 2018, a países que têm considerado a sua compra – e conseguiram bloqueá-la em alguns casos. Esta situação, conjugada com as represálias mais recentes, provocou uma quebra do valor das acções da Huawei na Bolsa de Shenzhen, que baixaram de 14,37 yuans (em 1 de Agosto de 2016) para 3,63 yuans (22 de Maio de 2019). Os investidores chineses na Huawei estão a ressentir-se da guerra pelo que tudo indicaria que, com as acções em descida abrupta, a empresa estaria a caminho da falência. Será?

A importância de um sistema operativo

Ainda que os ataques tenham afectado a Huawei em termos financeiros, as medidas tomadas em Maio atingiram também as empresas líderes norte-americanas como a Qualcomm e a Google. Este facto fez com que Trump emitisse uma moratória de 90 dias, com termo em 19 de Agosto de 2019, para tentar encontrar uma solução a longo prazo com a empresa Huawei. 

A Huawei é actualmente o terceiro fornecedor de telefones inteligentes do mundo. Em termos globais, a China encabeça a lista como o maior fornecedor desta tecnologia. As medidas tomadas por Trump representam uma oportunidade para a China de consolidar o seu próprio sistema operativo, o qual, segundo Richard Yu, CEO da Huawei, estará pronto em 2020. Este sistema tem como objectivos não apenas os dispositivos móveis mas também computadores, automóveis e televisores.

Deste modo, se a empresa chinesa conseguir concretizar uma produção integral dos seus produtos, criando o seu próprio sistema operativo, e se completar o seu abastecimento de semicondutores e chips para tecnologia móvel na Ásia, poderá gerar vantagens para os consumidores, pois uma situação como esta iria diminuir os custos. Um ataque contra a empresa de telecomunicações chinesa ZTE, que desde 16 de Abril de 2018 está impedida de comprar consumíveis norte-americanos durante sete anos, é parte desta mesma guerra. O lado contrário desta aposta é que tanto a Broadcom como a Qualcomm poderão vir a ter a Huawei e a ZTE como rivais tecnológicos, do mesmo modo que a AT&T o tem em relação à rede 5G.

Google asiático?

“A necessidade aguça o engenho”, diz o ditado; e as empresas chinesas revelaram enorme criatividade, a tal ponto que já não restam produtos norte-americanos no mercado electrónico, tão pouco japoneses e, de modo escasso, alguns sul-coreanos. Isto é verdadeiro para todas as telecomunicações. RCA Victor, Zenith, Hotpoint, Texas Instruments, Bowmar, IBM são nomes de empresas que não conseguiram competir a tempo. As japonesas Toshiba, Sony e Canon abdicaram desse ramo tecnológico e sobreviveu a Panasonic. Com todo o dinheiro que o governo norte-americano investe em investigação e desenvolvimento das empresas de telecomunicações, estas não conseguem apresentar os produtos finais ao mercado de maneira tão rápida e a preços competitivos como as chinesas. O mesmo acontece com a indústria automóvel. Esse é um problema de fundo, e não é um problema da China. É difícil acreditar que o Google possa encontrar competidor a nível global, dada a sua diversificação de serviços (Google Maps, Gmail, etc.), mas o seu monopólio tem vindo a ser comprometido por estas acções. O mais provável é que apareça um Google asiático que quebre o monopólio. De facto, na Ásia já não se utiliza o Google. Do que não há dúvida é que a guerra actual se parece muito com a guerra contra o Japão em 1985, quando os japoneses eram os “culpados” do défice norte-americano. O sobre-consumo norte-americano não é responsabilidade da política económica norte-americana, de acordo com a sua estranha visão do mundo. A economia norte-americana tem um problema de competividade que a da China não tem.

O papel estratégico das terras raras

A jogada seguinte do presidente da China, Xi Jinping, é utilizar o monopólio dos minerais de terras raras* como arma da guerra comercial. O índice MVIS Global Rare Earth/Strategic Minerals, que regista as acções de 20 produtores de terras raras, incluindo China, Austrália e Canadá, revela um auge a partir de Maio de 2019, depois de uma queda em Janeiro de 2018. Exibe agora os seus maiores ganhos diários desde Outubro de 2011. A China tem 80% dos minerais de terras raras do mundo, de onde se extraem elementos utilizados em electrónica de consumo de elevada tecnologia e equipamentos militares. Os Estados Unidos importam terras raras para poder fabricar aviões, automóveis, pinturas resistentes a temperaturas elevadas e ecrãs digitais, só para enumerar alguns produtos. Se a China não exportar terras raras para os Estados Unidos provocará danos enormes nas indústrias aeronáutica, automóvel e dos sensíveis equipamentos de medição. Este é um caminho para uma guerra comercial absurda.

Empresas chinesas como Oppo, Xiaomi e Vivo poderiam, em certos casos, comprar a Huawei e travar a sua falência. Ao mesmo tempo, esta guerra poderá arrastar pelo caminho a Apple, que vende metade dos seus equipamentos na China. A guerra continua e não deve confundir-se com as restrições às importações de tomates do México, que são cinco vezes mais baratos que os norte-americanos. Isto é outra coisa. É uma guerra estratégica contra uma empresa e na qual se envolveu a economia no seu conjunto. Não é proteccionismo, é falta de competividade. Os Estados Unidos não produziram a 5G a tempo, nada mais.

*Os metais de terras raras são um grupo de 17 elementos químicos do lantânio ao lutécio, a que se juntam o escândio e o ítrio. São extraídos de minerais como monazite, bastnasite, xenótimo, loparite e das argilas lateríticas. Apesar de relativamente abundantes, a sua extracção implica custos dispendiosos. Têm aplicações tecnológicas de grande importância estratégica como supercondutores, lasers, magnetos miniaturizados, catalisadores, optoelectrónica, raios catódicos, telefones móveis, computadores e televisores. Cerca de 87% dos metais de terras raras existem na Ásia; a China produz mais de três quartos destes elementos utilizados em alta tecnologia consumo, indústrias aeronáutica, automóvel e militar.




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