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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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GRETA THUNBERG E A CRUZADA DAS CRIANÇAS VERDES

2019-12-18

Ao seguirmos as pisadas desse fenómeno mundial chamado Greta Thunberg iremos encontrar, para surpresa de muitos – de outros, nem tanto – gente bastante graúda, entidades e personalidades através das quais é possível detectar rastos do ex-vice-presidente dos Estados Unidos da América, Al Gore, do Goldman Sachs, o banco dos bancos, da Pepsi, dos maiores fundos de activos do mundo, da Shell, da General Motors, do Google e da Pfizer, de âncoras do neoliberalismo como a OCDE, o FMI ou o Banco Mundial, de ex-membros de governos não menos ultraliberais. E apetece-nos tentar perceber como é que pessoas e organizações que contribuíram para estragar o clima estão agora empenhadas em salvar o clima. A explicação até não será muito difícil se olharmos Thunberg como um instrumento de agitação e propaganda para “legitimar” aquele que se perspectiva como o maior negócio destes tempos.

Geraldo Luís Lino, Ambientalismo/Edição e Adaptação de O Lado Oculto

Em 15 de março de 2019 e já em datas posteriores, mais de um milhão de estudantes deixaram de ir às aulas para marchar pelas ruas de quase duas mil cidades de mais de 100 países, em protesto contra o que consideram a inacção dos governantes de todo o mundo para conter as mudanças climáticas que acreditam ameaçar o seu futuro. Estas são apenas as manifestações mais visíveis de uma sequência de iniciativas semelhantes realizadas nos últimos dois anos, a partir dos Estados Unidos e da Europa, destinadas a envolver a juventude no esforço de criação de um sentimento global de emergência para as questões climáticas. O objetivo é pressionar os governos nacionais de todo o mundo a implementar, o quanto antes, a agenda de limitações de emissões estabelecida pelo Acordo de Paris, de modo a abrir caminho às soluções “de mercado” para a crise climática - como base de um incomensurável negócio especulativo já em andamento.

O ícone da campanha de mobilização é a adolescente sueca Greta Thunberg, de 16 anos, catapultada em poucos meses para a condição de celebridade global e já indicada para o Prémio Nobel da Paz. A sua ascensão retumbante resulta de uma muito bem planificada campanha de construção de uma imagem de paladina juvenil do clima, campanha essa que nos proporciona elementos sobre os reais interesses por detrás da agenda climática.

Cinco pontas de uma campanha

Em 20 de agosto de 2018, ainda com 15 anos, Greta Thunberg começou a faltar à escola para se sentar no passeio defronte do Parlamento sueco, em Estocolmo, exibindo um cartaz onde se lia: “Greve às aulas pelo clima”. No mesmo dia, a sua foto foi publicada na conta Twitter da empresa startup sueca We Don’t Have Time (Não Temos Tempo) com um comentário sobre a manifestação da “garota solitária”. Ligadas à conta da empresa estavam cinco contas do microblog: Greta Thunberg, Jamie Margolin, Zero Hour, Climate Reality Project e People’s Climate Strike. Além de Thunberg, examinemos as demais:

– We Don’t Have Time: startup criada pelo empresário sueco Ingmar Rentzhog, cujo objetivo, segundo o seu website, é “criar uma plataforma de redes sociais para o futuro orientada pelo maior desafio dos nossos tempos – o clima. Através da nossa plataforma, milhões de membros unir-se-ão para pressionar líderes, políticos e empresas a agir pelo clima”. Rentzhog é também presidente da ONG (Organização Não-Governamental) Global Utmaning (Desafio Global, em sueco) dedicada a “criar plataformas de cooperação entre as áreas de investigação, negócios, política e sociedade civil… para acelerar transformações rumo a comunidades sustentáveis”.

– Jamie Margolin: adolescente com 17 anos (à época 16), residente em Seattle, Estados Unidos, fundadora da organização de militância climática juvenil Zero Hour, que se autodefine como “um movimento liderado por jovens para criar meios de acesso, formação e recursos a jovens activistas e organizadores (e adultos que apoiem a nossa visão), que pretendam realizar acções concretas sobre as mudanças climáticas”.

– Climate Reality Project (CRP): ONG fundada em 2011 pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore (administração de Bill Clinton) a partir da fusão de duas outras organizações criadas pelo próprio, Alliance for Climate Protection e Climate Project. A sua autoproclamada missão é formar “líderes da realidade climática” em todo o mundo (mais de 19 mil até agora, entre eles Jamie Margolin), de modo a “catalisar uma solução global para a crise climática, tornando a acção urgente uma necessidade em cada nível da sociedade”.

– People’s Climate Strike: conta temporária criada para auxiliar a coordenação de vários movimentos juvenis de protestos climáticos.

Do anonimato à fama global num ápice

Em síntese, no dia da sua estreia “solitária”, Greta Thunberg já estava conectada com membros importantes de uma vasta rede internacional de ONG’s e indivíduos empenhados na agenda climática global. Al Gore, figura emblemática do sistema neoliberal, é um dos personagens centrais desta trama e a ele voltaremos mais adiante. A partir de então, a promoção da adolescente sueca à posição de líder da “Cruzada das Crianças Verdes” foi impressionante:

– Setembro de 2018: em Bruxelas, manifestação do movimento Rise for Climate na sede da União Europeia, como parte de manifestações semelhantes ocorridas em dezenas de países; Greta Thunberg foi também uma das três indicadas para o prémio Jovem Herói Ambiental do Ano pela filial sueca do Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Suécia);

– Outubro: marchas pelo clima em Helsínquia e em Londres, onde a jovem sueca se juntou ao recém-criado movimento Extinction Rebellion na “Declaração de Revolta”, manifesto que, entre outros pontos, exige que os governos de todo o mundo adoptem uma agenda de “emissões líquidas zero” até 2025; no mesmo mês, foi eleita pela revista Miljö & Utveckling (Meio Ambiente e Desenvolvimento) a Influenciadora Ambiental número 2 do ano na Suécia, apenas atrás do seu mentor Rentzhog, o empresário de We Don’t Have Time;

– Novembro: conferência TEDx em Estocolmo;

– Dezembro: conferência climática COP-24, em Katowice, Polónia.

Além disso, Greta Thunberg foi indicada para o Prémio Clima Infantil, concedido pela companhia de electricidade Telge Energi a crianças e jovens promotores do desenvolvimento sustentável; declinou, porém, a nomeação porque os finalistas teriam de viajar de avião para Estocolmo (ela e a família renunciaram às viagens aéreas). Recebeu a renomada Bolsa Fryshuset de Jovem Modelo do Ano e, em Dezembro, a revista norte-americana Time considerou-a um dos 25 adolescentes mais influentes do mundo. Um ano depois, em 2019, a mesma revista elevou-a a “Personalidade do Ano”.

Em Janeiro de 2019, apenas cinco meses depois da sua “manifestação solitária”, Greta Thunberg participou na reunião anual do Fórum Económico Mundial, em Davos-Klosters, Suíça, afamado encontro a alto nível sobre o estado do neoliberalismo. Na ocasião, fez um curto discurso cuja mensagem se espalhou rapidamente por todo o mundo, sintetizando os principais objectivos da nova cruzada ambientalista global, do qual destacamos os seguintes excertos:

“A nossa casa está a arder. Estou aqui para dizer que a nossa casa está a arder. De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), temos menos de 12 anos para poder desfazer os nossos erros. Neste período são necessárias mudanças sem precedentes em todos os aspectos da sociedade, inclusive uma redução das emissões de CO2 (dióxido de carbono) em pelo menos 50%. (…)

Como a crise climática nunca foi tratada como uma crise, as pessoas simplesmente não estão conscientes das suas reais consequências na nossa vida quotidiana. As pessoas não estão conscientes de que existe uma coisa chamada balanço global de carbono (carbon budget, no original), e como esse remanescente balanço global de carbono é tão incrivelmente pequeno. É preciso mudar a situação já.

Nenhum outro desafio actual pode comparar-se à importância de se estabelecer uma ampla percepção e entendimento público do nosso balanço global de carbono, que está a desaparecer rapidamente, que deveria e deve tornar-se a nova moeda global e o próprio coração da nossa futura e actual economia.

Os adultos estão sempre a dizer: ‘Devemos dar esperança aos jovens’. Mas eu não quero a sua esperança. Não quero que vocês tenham esperança. Quero que entrem em pânico. Quero que sintam o medo que eu sinto todos os dias. E, portanto, quero que actuem.”

Em Fevereiro, Greta voltou a Bruxelas para mais um discurso, desta vez no Comité Económico e Social da União Europeia, onde dividiu o palco com o próprio presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker.

Em Março, foi indicada para o Prémio Nobel da Paz por três parlamentares noruegueses.

Nada mau para uma adolescente que frequentava então o oitavo ano do Ensino Fundamental sueco; apesar de a frequência às aulas ser obrigatória até aos 16 anos, Greta já tinha dado mais de um mês de faltas devido à sua missão de líder da cruzada verde infanto-juvenil, função para a qual a sua imagem e actuação têm sido cuidadosamente planificadas.

A carreira de Greta tem como mentores directos Ingmar Rentzhog e a sua própria mãe, a cantora lírica Malena Ernman, conhecida militante de causas ambientais e que em 2017 foi nomeada Heroína Ambiental do Ano pelo WWF-Suécia. Em 2018, Malena e o marido, o actor Svante Thunberg, publicaram o livro Scener ur hjärtat (Cenas do coração), no qual relatam os problemas de saúde das filhas e discorrem sobre as “influências das mudanças climáticas” na vida da família. Curiosamente, o livro foi lançado quatro dias depois do primeiro protesto de Greta e, na esteira do estrelato da jovem cruzada, já teve os direitos de tradução negociados para vários países.

Em Maio de 2018, Greta fora uma das vencedoras de um concurso de textos sobre o clima promovido pelo jornal Svenska Dagbladet, um dos mais importantes do país. Em Junho, o jornal deu grande destaque ao livro da família, que seria lançado dois meses depois.

Um revelador Manifesto

Em 1 de Setembro de 2018, menos de duas semanas após a estreia “solitária” de Greta, o jornal Dagens Nyheter, o mais importante da Suécia, publicou um manifesto da Global Utmaning sugerindo soluções financeiras para a crise climática: 

“Embora muitas das mudanças requeridas sejam tanto possíveis como lucrativas, vigorosas campanhas políticas são essenciais para ajustar preços, impostos e regulamentações, de modo a que a transição para uma sociedade sustentável se torne atractiva, lucrativa e rápida.”

Entre os signatários do manifesto estavam Rentzhog da We Don’t Have Time, a mãe de Greta Thunberg e Anders Wijkman, veterano político sueco envolvido em causas ambientais, que foi copresidente do Clube de Roma (2012-18), um dos principais think-tanks associados à promoção do falacioso conceito dos “limites do crescimento” (leia-se interdição do pleno desenvolvimento). Não por acaso, o Clube de Roma apoiou plenamente a cruzada infanto-juvenil encabeçada por Greta Thunberg.

Mas o principal mentor da construção de Greta é Rentzhog, que a incluiu no conselho de directores da We Don’t Have Time, juntamente com Jamie Margolin, como curadoras e assessoras especiais para a juventude, apesar de Greta ter renunciado ao posto em Fevereiro último. Os seus vínculos com as redes de Al Gore, como veremos, revelam um projeto cuidadosamente articulado.

Entretanto, Greta é apenas uma entre os numerosos adolescentes que estão a ser envolvidos em organizações de acção climática num número crescente de países dos cinco continentes. Em geral, os dirigentes dessas organizações são articulados, carismáticos, dinâmicos e dedicam-se à causa com um fervor análogo ao dos cruzados infantis do século XIII, que atravessaram meia Europa com a intenção de libertar Jerusalém na malfadada Cruzada das Crianças. A maioria dessas organizações é apoiada por entidades “de gente grande”, como o Climate Reality Project de Al Gore e o seu programa de formação de “líderes de realidade climática”, o Clube de Roma, o WWF (Fundo Mundial para a Natureza), o World Resources Institute (WRI), Greenpeace, 350.org, Avaaz e outras. Ou seja, o movimento não tem nada de espontâneo – é mais um instrumento político da cúpula do aparelho ambientalista internacional associado ao regime económico globalizante – o neoliberalismo.

Tentáculos neoliberais

A startup We Don’t Have Time, de Ingmar Rentzhog, constitui uma excelente porta de entrada para a multitentacular estrutura de empresas, fundos de gestão de activos, fundações privadas e governamentais, ONG’s e governos envolvida na financeirização do clima e do meio ambiente num âmbito global. Actuando nas redes sociais e nos media convencionais, propaganda digital e comércio de créditos de carbono, a empresa ambiciona criar uma vasta rede de “utilizadores conscientes” para estabelecer um sistema de pontuação de empresas, governos e outras entidades baseado no falacioso conceito de “neutralidade de carbono”; um processo análogo ao da conhecida plataforma social TripAdvisor.com, que avalia hotéis, companhias aéreas, agências de viagens etc. com base em apreciações dos seus milhões de utilizadores.

Um vídeo promocional da empresa We Don’t Have Time afirma:

“Os decisores – políticos, empresas, organizações, Estados – obtêm uma classificação climática (climate rating, no original) baseada na sua capacidade de se posicionarem nos níveis de exigência dos utilizadores. Conhecimento e opinião reúnem-se no mesmo lugar e os utilizadores colocam pressão nos decisores para acelerar as mudanças.

As principais fontes de receitas são os actores comerciais que receberem elevadas qualificações climáticas e de confiança na base de membros da We Don’t Have Time. (…) O modelo de receitas lembra a plataforma social do modelo de negócio da TripAdvisor.com, que, com seus 390 milhões de utilizadores, gera anualmente mais de mil milhões de dólares… Trabalharemos com parceiros estratégicos, designadamente líderes de realidade climática, organizações climáticas, blogueiros, influenciadores e especialistas importantes na área.”

Numa entrevista à revista Acquisition International Magazine (Nº10, 2018), Rentzhog afirmou que o objectivo é “dar poder aos nossos utilizadores para pressionar os líderes mundiais, para que eles se movam mais rapidamente rumo a um mundo livre de emissões e a soluções e políticas ambientalmente sustentáveis”.

Na mesma entrevista, sentenciou: 

“Queremos que seja mais penalizador, em termos de receitas, apoio público e reputação, não trabalhar para baixar as emissões e para melhorar a sustentabilidade ambiental; por outro lado, os que liderarem o caminho deverão ser recompensados por isso. A nossa visão é criar uma corrida rumo à sustentabilidade ambiental e à neutralidade de CO2, fazendo disto a prioridade básica para os negócios, políticos e organizações de todo o mundo.”

Em essência: fazer da “neutralidade de carbono” a “nova moeda global e o próprio coração da nossa futura e actual economia”, para usar as palavras da sua protegida Greta Thunberg em Davos, que os jovens cruzados do clima repetem como um mantra em redor do planeta.

Os conselhos de administração e consultivo da startup We Don’t Have Time e da Global Utmaning, além de serem, em grande medida, intercambiáveis, têm em comum a presença de vários “líderes” treinados pelo Climate Reality Project de Al Gore, por sua vez parceiro estratégico de ambas.

A rede de negócios de Al Gore

Além do Climate Reality Project (CRP), o outro braço de Gore no mundo dos “negócios sustentáveis” é o Generation Investment Management (GIM), um fundo de investimentos em atividades nominalmente sustentáveis, fundado em 2004 em parceria com David Blood, ex-diretor de gestão de activos do megabanco Goldman Sachs, que “faz o papel de Deus na Terra”, segundo o seu presidente. Sediado em Londres, com uma filial em São Francisco, Estados Unidos, o fundo GIM tem como parceiras estratégicas ONG’s de primeiro escalão envolvidas na campanha climática, como o próprio CRP, o WRI, o Natural Resources Defense Council e The Alliance for Climate Protection.

Blood é também um dos diretores do WRI (World Resources Institute), organização fundada em Washington, em 1982, com filiais em seis países (inclusive no Brasil), que integra o “Estado-Maior” do movimento ambientalista internacional, além de ser uma das coordenadoras da agenda da financeirização climático-ambiental. Os seus colegas na comissão directiva da ONG representam uma amostra emblemática da extensão dos interesses em jogo. Entre eles, destacam-se:

– Felipe Calderón, ex-presidente do México, presidente da comissão supervisora do projecto New Climate Economy;

– Cristiana Figueres, ex-secretária-executiva da Convenção Quadro de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (UNFCCC), directora da ONG The B Team, membro do Conselho Económico sobre Saúde Planetária da Fundação Rockefeller;

– Jennifer Scully-Lerner, vice-presidente da área de administração de riquezas privadas do Goldman Sachs;

– James Gustave Speth, fundador do WRI, membro do Conselho de Relações Externas (CFR), conselheiro do Climate Reality Project de Gore e da 350.org;

– Andrew Steer, atual presidente do WRI, conselheiro para o desenvolvimento sustentável do Bank of America e do grupo IKEA;

– Kathleen McLaughlin, vice-presidente do gigante comercial Walmart, presidente da Walmart Foundation;

– James Harmon, presidente da Caravel Management, membro do CFR;

– Afsaneh M. Beschloss, fundadora e presidente da gestora de activos RockCreek, ex-diretora do Carlyle Group, membro do CFR;

– Joke Brandt, secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Holanda;

– Jamshyd N. Godrej, presidente do Aspen Institute India e vice-presidente do WWF International;

– Caio Koch-Weser, ex-vice-presidente do Deutsche Bank, presidente da European Climate Foundation, membro da Global Comission on the Economy and Climate (NCE).

O grupo consultivo corporativo do WRI inclui os seguintes pesos pesados da economia mundial: Abbot Laboratories, Bank of America, Cargill Corporation, Caterpillar, Citigroup, Colgate-Palmolive, DuPont, General Motors, Goldman Sachs, Google, Kimberley-Clark, PepsiCo, Pfizer, Shell, Walmart, Walt Disney Company e Weyerhauser.

Em Setembro de 2018, o WRI teve participação activa na convocação da Cimeira Um Planeta (One Planet Summit), em Nova York, promovida pelo Ministério do Meio Ambiente da Alemanha, a William and Flora Hewlett Foundation, IKEA Foundation (os três importantes doadores do WRI), Grantham Foundation for the Protection of the Environment, Agence Française de Développement (AFD) e o fundo de gestão de activos BlackRock, o maior do mundo (responsável por activos superiores a 6 biliões ou milhões de milhões de dólares). Com a presença do presidente francês Emmanuel Macron e do chefe-executivo do fundo BlackRock, Larry Fink, foi anunciada a criação da Climate Finance Partnership (CFP), definida como uma “cooperação invulgar entre organizações filantrópicas, governos e investidores privados comprometidos em desenvolver conjuntamente um veículo para investimentos em infraestruturas climáticas (sic) em mercados emergentes. A parceria pretende fazer investimentos num conjunto determinado de sectores, inclusive energias renováveis, eficiência energética, armazenamento de energia e transportes de baixo carbono e electrificados em várias regiões, incluindo a América Latina, Ásia e África”.

Outra iniciativa do WRI é o projeto New Climate Economy, assim definido no seu website:

“(…) Uma importante iniciativa internacional que avalia como os países podem atingir o crescimento económico enquanto lidam com os riscos das mudanças climáticas. É o projecto principal da Global Comission on the Economy and Climate, constituída por ex-chefes de governo, ministros das finanças e líderes nos campos da economia e dos negócios. A Global Comission foi fundada em 2013, por sete países – Colômbia, Etiópia, Indonésia, Noruega, Coreia do Sul, Suécia e Reino Unido. O projecto é desenvolvido por uma parceria global de institutos de investigação, da qual o WRI é o parceiro administrativo, e uma equipa base liderada por Helen Mountford."

Mountford é uma típica “ecotecnocrata”: foi vice-directora de Meio Ambiente na Organização para a Cooperação Económica e o Desenvolvimento (OCDE), um pilar do neoliberalismo, e trabalhou em ONG’s no Reino Unido e na Austrália.

12 biliões para o privado em 10-15 anos

Entre os membros da Comissão Global encontram-se Felipe Calderón, a ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark, o ex-presidente do Chile, Ricardo Lagos, o chefe-executivo da HSBC Holding da Suíça, John Flint, o ex-chefe-executivo da Unilever, Poul Polman, a directora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, o presidente da Shell, Chad Holliday, entre outros.

Estreitamente vinculada às organizações anteriormente citadas está a Blended Finance Taskforce (BFT), instituição criada em 2017 para “identificar barreiras ao uso efectivo e ao dimensionamento de financiamento misto”, permitindo “implementar um ambicioso plano de acção para aumentar investimentos privados importantes para os ODS, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”.

Ainda sem equivalente exacto em português, a expressão “blended finance” pode ser considerada como uma forma de financiamento misto que combina capitais de fundos filantrópicos e de investidores tradicionais. Segundo o website da BFT:

“Actualmente preenchemos cerca de metade dos requisitos de financiamento dos ODS. Há um défice anual de muitos biliões de dólares que o sector público não consegue colmatar sozinho. A boa notícia é que investir nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável é um negócio que faz sentido para os investidores. (…) Prevê-se uma oportunidade económica de 12 biliões (milhões de milhões) de dólares para o sector privado nos próximos 10 a 15 anos. Mas necessitamos de ter um crescimento ainda mais rápido nos investimentos em infraestruturas – que hoje constituem menos de um por cento dos portfólios dos investidores institucionais. Colocar como meta um bilião (um milhão de milhões) de dólares em emissões de títulos verdes será instrumental para fazer com que isso aconteça. Mas as infraestruturas (tanto acções como dívida) podem ser uma difícil classe de activos para os investidores – especialmente em países em desenvolvimento. A mitigação de certos riscos para os investidores, ‘misturando’ capitais públicos e privados, pode ajudar.”

A taskforce (“força-tarefa”) é constituída por um grupo de 50 representantes de grandes empresas multinacionais, fundações privadas, órgãos multilaterais e ONG’s criadas para promover as finanças climáticas.

Estas iniciativas constituem apenas a ponta do iceberg da vasta estrutura montada para assegurar a financeirização do clima e do meio ambiente em geral, cujos alvos primários são os países em desenvolvimento comprometidos com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

A aceitação acrítica e passiva de tal financeirização poderá deixar os países em desenvolvimento ainda mais à mercê dos desígnios de investidores internacionais “sustentáveis” no que diz respeito ao financiamento dos seus planos de desenvolvimento; e também dependentes das classificações da sua “neutralidade de carbono” estabelecidas por agências privadas sobre as quais não teriam qualquer influência, como já ocorre actualmente com as transacções com títulos soberanos e corporativos.

Pelo que atrás ficou escrito, quando se observa Greta Thunberg à cabeça desta cruzada pelo clima tenhamos a noção de como os tubarões das finanças, os polvos transnacionais da economia usam a sua imagem como ícone e como um instrumento de globalização de um moderno e gigantesco negócio, o do meio ambiente e do clima, também um novo e criativo processo de drenagem de fundos públicos para bolsos privados sem fundo.



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