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ECONOMIA DE GUERRA AVANÇA NA EUROPA

Uma feira popular da guerra na praça principal de Nápoles

2019-11-10

Enquanto nas economias da União Europeia os investimentos públicos estão praticamente estagnados, não deixam de progredir, por outro lado, os investimentos no circo da guerra. Por ironia, algumas das regiões mais pobres da Europa e flageladas por colossais índices de desemprego jovem são aquelas onde se concentram grandes instalações da NATO, transformando a guerra na única “indústria” de emprego “seguro”. Aqui fica o exemplo de Itália.

Manlio Dinucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

Foi Nápoles, e não Roma, que em 4 de Novembro esteve no centro do Dia das Forças Armadas italianas. Em frente ao mar Caracciolo desfilaram cinco batalhões.

O ponto forte, porém, foi a área de exposição inter armas, que durante cinco dias recebeu, na Praça do Plebiscito, sobretudo jovens e crianças. Puderam subir a bordo de um caça-bombardeiro, conduzir um helicóptero num simulador de voo, admirar um drone Predator, entrar num carro de assalto, treinar-se com instrutores militares, depois ir ao porto visitar um navio anfíbio de assalto e duas fragatas (FREMM). Uma grande “Feira da guerra” montada com um objectivo preciso: o recrutamento.

A tropa disfarça o desemprego

Setenta por cento dos jovens que pretendem alistar-se vive na região meridional de Itália, sobretudo na Campânia e na Sicília, onde o desemprego de jovens é de 53,6% enquanto a média europeia é de 15,2%. A única entidade que oferece um emprego “seguro” é o exército.

Depois das selecções, o número de recrutas revelou-se, porém, inferior ao necessário. As Forças Armadas têm necessidade de mais pessoal, uma vez que estão envolvidas em 35 operações em 22 países, da Europa Oriental aos Balcãs, de África ao Médio Oriente e à Ásia. São as “missões de paz” efectuadas sobretudo em lugares onde a NATO sob comando dos Estados Unidos, com a participação activa de outros países, entre eles a Itália, desencadeou guerras que demoliram Estados e desestabilizaram regiões inteiras.

Para conservar as Forças Armadas e os armamentos adequados – por exemplo os F-35 italianos colocados pela NATO na Islândia, como mostrou a RAI em 4 de Novembro – gastam-se 25 mil milhões de euros anuais do dinheiro público italiano. Em 2018, as despesas militares italianas subiram do 13º ao 11º lugar na escala mundial, mas os Estados Unidos e a NATO fazem pressão no sentido de um aumento superior em função, sobretudo, da escalada contra a Rússia.

Em Junho último, o primeiro governo Conte (coligação entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas) “desbloqueou” 7200 milhões de euros para somar às despesas militares. Em Outubro, num encontro do primeiro-ministro com o secretário-geral da NATO, o segundo governo Conte (coligação do Partido Democrático com o Movimento 5 Estrelas) assegurou o compromisso de aumentar as despesas militares em cerca de sete mil milhões de euros a partir de 2020 (La Stampa, 11 de Outubro de 2019). A Itália está, deste modo, em vias de passar de uma despesa militar da ordem dos 70 milhões de euros por dia para cerca de 87 milhões por dia. Trata-se de dinheiro público subtraído a investimentos produtivos fundamentais, designadamente em regiões como a Campânia, que poderiam reduzir o desemprego - a começar pelo dos jovens.

O circo de guerra de Nápoles

Outros são os “investimentos” que estão a ser feitos em Nápoles. A cidade desempenha cada vez mais o papel de sede de alguns dos mais importantes comandos dos Estados Unidos e da NATO.

Em Nápoles-Capodichino está instalado o Comando das Forças Navais dos Estados Unidos na Europa, sob as ordens de um almirante norte-americano que comanda simultaneamente as Forças Navais dos Estados Unidos para África e a Força Conjunta Aliada (JFC), com quartel-general em Lago Patria (Nápoles).

De dois em dois anos, a JFC de Nápoles assume o comando da força de resposta da NATO, uma força conjunta para as operações militares na “zona de responsabilidade” do Comando Supremo Aliado na Europa, sempre sob as ordens de um general norte-americano, e “para lá dessa zona”.

No quartel-general do Lago Patria está em funções, desde 2017, o centro de direcção estratégica da NATO para o Sul, um centro de informações, isto é, de espionagem, concentrado no Médio Oriente e em África. 

Do comando de Nápoles depende a Sexta Esquadra norte-americana, com base em Gaeta (Itália) e que, segundo a vice-almirante dos Estados Unidos Lisa Franchetti, opera “do Polo Norte ao Polo Sul”.

Eis, pois, o papel de Nápoles no quadro da NATO, definida pelo presidente italiano Giuseppe Mattarella, em 4 de Novembro, como “uma aliança para a qual decidimos livremente contribuir, protegendo a paz no contexto internacional, salvaguardando os mais fracos e oprimidos e os direitos humanos”.



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