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A SÍRIA ENTRE O MARTELO OTOMANO E A BIGORNA ISRAELITA

Tropas turcas invadindo a Síria

2019-10-11

Elias Samo, Strategic Culture/adaptação O Lado Oculto

A Síria, numa situação desconfortável e vulnerável, está a ser prensada entre o martelo otomano, a norte, e a bigorna israelita, a sul. Ambos os sectores são hostis, expansionistas e ocupam território sírio. Por vezes, quando se menciona uma “zona segura” ao longo da fronteira sírio-turca vem à mente a situação que se vive na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Em ambos os casos invocam-se razões de “segurança”: há um Estado colocado sob ameaça a pretexto da “segurança” do Estado vizinho.

A fronteira entre o México e os Estados Unidos é invocada por Washington como uma fonte de problemas “de segurança” devido ao fluxo de candidatos à imigração. Para lidar com esse alegado problema, Trump não seguiu a hipótese de estabelecer uma “zona segura” (safe zone) do lado mexicano da fronteira através da ocupação militar, em princípio porque tal opção violaria o direito internacional, a soberania e a integridade territorial do México. Em vez disso, o presidente norte-americano resolveu construir um muro do lado norte-americano da fronteira para atenuar os problemas “de segurança”.

O “cinturão otomano”

Do mesmo modo, o presidente turco, Recep Tayyp Erdogan, encara a concentração de curdos armados no lado sírio da fronteira entre a Síria e a Turquia, que considera “terroristas”, como uma “ameaça à segurança nacional” de Ancara. Erdogan, no entanto, não considera que a construção de um muro seja suficiente para lidar com a ameaça curda. Cinicamente com a bênção e em parceria com Trump, optou por estabelecer uma “zona segura” com 400 quilómetros de comprimento, e ainda indefinida, do lado sírio da fronteira, no sector leste do rio Eufrates e até à fronteira com o Iraque, violando o direito internacional, a soberania e a integridade territorial da Síria. Um processo semelhante no sector oeste do Eufrates, cobrindo o restante segmento da fronteira entre a Síria e a Turquia, poderá eventualmente completar os 800 quilómetros de comprimento daquilo a que Erdogan chama “o cinturão otomano”.

Erdogan está determinado e impaciente por ter tropas turcas instaladas no terreno. Num discurso proferido recentemente em Istambul disse: “Não temos muito tempo e paciência quanto à criação da zona de segurança a leste do Eufrates, a concluir dentro de algumas semanas. Os nossos soldados têm de alcançar o controlo real dessa área, não há outra alternativa para concretização dos nossos planos”. Ao escolher a ocupação militar em terreno alheio, em vez de construir um muro no território turco, Erdogan levanta uma questão séria quanto às suas intenções reais e finais: ao escolher a ocupação, o presidente turco cria uma situação idêntica ao precedente aberto no Norte de Chipre.

Três objectivos

Erdogan tem três objectivos ao estabelecer uma zona de ocupação designada como “zona de segurança”: o primeiro é precisamente a “segurança; o segundo é o de instalar refugiados sírios que estão na Turquia – Erdogan fala em dois milhões, os quais, por sinal, não são oriundos dessa zona do país; o terceiro e insidioso objectivo, não declarado nos discursos oficiais, é o de recuperar potencialmente o território sírio que esteve ocupado pelos otomanos durante 400 anos, até ao final da Primeira Guerra Mundial. Recorda-se que a actual fronteira entre a Síria e a Turquia, com 800 quilómetros de extensão, foi traçada pelo Acordo Sykes-Picot* após esse conflito, que se traduziu no fim do Império Otomano. Não se trata de uma fronteira histórica ou natural: uma parte substancial coincide com o traçado ferroviário do Expresso do Oriente, construído por alemães e cristãos para servir de separação entre dois Estados Muçulmanos e não para os ligar.

O presidente da Turquia recorre a uma estratégia dupla para lidar com as grandes potências e atingir os seus objectivos. Com a Europa faz chantagem: ou continua a receber apoio financeiro associado à questão dos refugiados ou abrirá as suas fronteiras para que estes entrem no espaço europeu – o que tem vindo a ficar evidente durante as últimas semanas. Com Washington e Moscovo pratica a estratégia da “outra mulher”. Situação que faz lembrar o comportamento israelita nas negociações quadripartidas do Médio Oriente – entre Israel e palestinianos e Israel e a Síria – no início dos anos noventa do século passado. Sempre que os israelitas tinham dificuldades num ponto de negociação apoiavam-se noutro; o mesmo acontece agora com Erdogan em relação a Washington e Moscovo.

O nariz e o corpo do camelo

Quanto ao Sul da Síria, Netanyahu e Erdogan parecem estar em posições antagónicas mas partilham, de facto, um objectivo comum, que é o de prensar e ocupar território sírio. Na tentativa de concretizar os seus objectivos, ambas as partes invocam reivindicações históricas questionáveis. A anexação dos Montes Golã por Netanyahu, com a bênção de Trump, assenta em invocações históricas que não são censuráveis por Erdogan, apesar dos seus pretensos protestos públicos. Os otomanos ocuparam a Síria durante 400 anos e o primeiro-ministro de Israel afirma que os Golã pertencem historicamente a Israel.

Turquia e Israel já “recuperaram” partes de territórios que acreditam pertencer-lhes: Ancara “recuperou” o distrito sírio de Alexandretta em 1939; Israel “recuperou” dois terços dos Montes Golã sírios na guerra de 1967. Isso pressupõe que ambas as partes gostariam de “recuperar” mais.

Há um velho provérbio árabe que diz: “Se o camelo mete o nariz numa tenda, o corpo irá atrás”. Tanques e soldados turcos estão no Norte da Síria; as forças armadas e os colonatos israelitas ocupam os Montes Golã. Estamos perante uma grande ironia, que é a de a Síria, berço eterno da civilização e o lar das três religiões monoteístas, se ter tornado uma presa dos impérios otomano e israelita. Uma imensa descaracterização. Mas que se note: a Síria não é uma presa fácil nem está sozinha.

*Acordo secreto de 1916 entre os ministros dos Negócios Estrangeiros de Inglaterra e França estabelecendo a divisão das esferas de influência dos dois países no Médio Oriente tendo em conta a possível derrota e desmembramento do Império Otomano da Primeira Guerra Mundial. 


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