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WASHINGTON USA GRÉCIA PARA BLOQUEAR MEDITERRÂNEO

2019-09-30

Os Estados Unidos contam com o colaboracionismo da Grécia para ocupar militarmente o porto de Alexandroupolis, na região da Trácia Ocidental, como forma de bloquear a ligação marítima entre o Mediterrâneo e o Mar Negro a países que “têm interesses diferentes dos nossos”, designadamente a Rússia e a China. Uma arma na “geopolítica da energia” e mais um foco de provocações militares em perspectiva.

Manlio Dinucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

Geoffrey R. Pyatt foi embaixador dos Estados Unidos na Ucrânia de 2013 a 2016. Organizou com Victoria Nuland o golpe de Estado conhecido por “EuroMaidan”. Nomeado por Obama para o cargo de embaixador na Grécia em 2016, montou um cisma no seio da Igreja Cristã Ortodoxa e está, a partir de então, encarregado de fazer fracassar o abastecimento da gás natural russo à União Europeia.

“Regresso precisamente de Alexandroupolis, uma visita estratégica importante que pôs em destaque as excepcionais relações militares entre os Estados Unidos e a Grécia e o investimento estratégico que o governo dos Estados Unidos está a fazer em Alexandroupolis” – Geoffrey Pyatt, embaixador dos Estados Unidos na Grécia, 16 de Setembro de 2019.

O porto de Alexandroupolis, no nordeste da Grécia em pleno sector fronteiriço com a Turquia e a Bulgária, situa-se no Mar Egeu, nas margens do Estreito de Dardanelos que, ligando o Mediterrâneo ao Mar Negro em território turco, juntamente com o Estreito do Bósforo, constitui uma fundamental via de tráfego marítimo para a Rússia.

A importância geoestratégica deste porto, que Pyatt visitou com o ministro grego da Defesa, Nikolaos Panagiotopoulos, é explicada pela própria Embaixada dos Estados Unidos em Atenas: “o porto de Alexandroupolis, graças à sua localização estratégica e às suas infraestruturas, está bem posicionado para apoiar os exercícios militares na região, como foi demonstrado pelo recente Saber Guardian 2019”.

Fechar porta entre mares

O “investimento estratégico” que Washington está já a efectuar no porto tem como objectivo fazer de Alexandroupolis uma das mais importantes bases militares norte-americanas na região, em condições de bloquear o acesso de navios russos ao Mediterrâneo. Isto é tornado possível pelas “excepcionais relações militares” com a Grécia, que há muito tempo pôs as suas bases à disposição dos Estados Unidos: especialmente Larissa, para os drones armados Reapers e Stefanovikio, para os caças F-16 e os helicópteros Apache. Esta base, que vai ser privatizada, será comprada pelos Estados Unidos.

O embaixador Pyatt não esconde o interesse que os Estados Unidos têm em reforçar a sua presença militar na Grécia e em outros países da região mediterrânica: “Trabalhamos com outros parceiros democráticos na região para afastar actores maléficos como a Rússia e a China, que têm interesses diferentes dos nossos”, designadamente “a Rússia, que utiliza a energia como instrumento da sua influência maléfica”. Depois sublinha a importância adquirida pela “geopolítica da energia”, afirmando que “Alexandroupolis desempenha um papel crucial para ligação da segurança energética à estabilidade da Europa”. A Trácia Ocidental, a região grega onde se situa o porto, é, com efeito, “um corredor estratégico para a Europa Central e Oriental”.

Para compreender o que o embaixador pretende dizer basta olhar os mapas. A região limítrofe da Trácia Oriental – isto é, a pequena parte europeia da Turquia – é o ponto de chegada, depois de ter atravessado o Mar Negro, do gasoduto Turk Stream, iniciado na Rússia. A partir daí, através de um outro gasoduto, o gás russo deverá chegar à Bulgária, Sérvia e outros países europeus. É a resposta russa à manobra concretizada pelos Estados Unidos que, com a contribuição determinante da Comissão Europeia, conseguiram bloquear em 2014 o gasoduto South Stream, que teria levado o gás russo a Itália e outros países da União Europeia.

Os Estados Unidos tentam agora bloquear também o Turk Stream, um objectivo mais difícil porque entram em jogo as relações já deterioradas com a Turquia. Por causa disso, Washington apoia-se na Grécia, país a que fornece quantidades crescentes de gás natural liquefeito como alternativa ao gás natural russo.

Desconhece-se o que os Estados Unidos estão em vias de preparar na Grécia, incluindo contra a China, que pretende fazer do porto do Pireu uma importante escala da nova Rota da Seda, a Iniciativa Cintura e Estrada (ICE). Não seria de espantar que, segundo o modelo do “incidente do Golfo de Tonquim”, acontecesse no Mar Egeu um “incidente de Alexandroupolis”.


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