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JOHNSON, TRUMP E O SALTO NO DESCONHECIDO

2019-07-27

Patrick Cockburn, Counterpunch/O Lado Oculto

A ascensão de Boris Johnson a primeiro-ministro britânico pode ser um golpe de Estado suave? A recente actuação racista de Donald Trump contra quatro congressistas norte-americanos não-brancos confirma que é um dirigente fascista como Mussolini e Hitler? As duas perguntas devem ter respostas conjugadas, porque os desenvolvimentos políticos no Reino Unido tendem a imitar os dos Estados Unidos e vice-versa, embora este caso seja menos frequente. Os anos Thatcher-Reagan na década de oitenta foram um exemplo desta infecção cruzada.

Habitualmente sou cauteloso na utilização da expressão “golpes suaves” e em fazer analogias com o aparecimento de dirigentes populistas e demagógicos nas décadas de vinte e trinta na Europa. Mas os paralelos e semelhanças entre essa época e a de hoje tornam-se cada dia mais ameaçadores. As análises segundo as quais Trump e Johnson teriam de enfrentar muitos obstáculos para chegarem ao poder têm recebido frequentes desmentidos.

Os mecanismos democráticos desempenharam um papel muito limitado na selecção de Johnson como primeiro-ministro britânico. Foi escolhido num universo de 160 mil membros do Partido Conservador – amplamente não representativo – dos quais mais de metade tem mais de 55 anos e 38% têm mais de 66 anos. Johnson comandará um governo minoritário formado por um outro dirigente conservador, Theresa May, e dependerá dos votos de um partido extremista protestante que é produto da política sectária na Irlanda do Norte.

O caso do arenque fumado

Os defensores de Johnson argumentam que não deve levar-se muito a sério a sua retórica de campanha, excessivamente exaltada e mentirosa, prevendo-se que adopte um estilo mais moderado no cargo. Que não se conte muito com isso: foram muitos os que em Washington disseram o mesmo de Trump, isto é, que ele acabaria por cair em si. Os analistas estão a esquecer-se de que dirigentes cientes de que chegaram ao poder com base no ódio contra os estrangeiros e as minorias e acusando os seus opositores de traição não irão ver qualquer motivo para abandonar essa fórmula vencedora. 

Pelo contrário, Trump multiplicou os seus ataques contra políticos norte-americanos não-brancos na base de que não são americanos, são inimigos da América e deverão ir-se embora. Fotos de Trump olhando tranquilamente os seus apoiantes entoando cantos de ódio racial, durante um comício na Carolina do Norte, contra Ilhan Omar, uma das quatro congressistas que atacou, revelam que não há limites para a exploração de animosidades racistas.

Poucos dias depois desse comício, Johnson esteve num palanque em Canning Town regalando a audiência com uma pequena história sobre a regulamentação excessiva da União Europeia que estrangula o negócio do arenque fumado na Ilha de Man. Este foi o tipo de história para chamar a atenção com que Boris Johnson iniciou a sua carreira de jornalista como correspondente do Daily Telegraph em Bruxelas, entre 1993 e 1994. Nessa altura, tal como agora, as suas histórias retratam a União Europeia como um monstro burocrático sugando dinheiro do Reino Unido, ao gosto dos preconceitos criados nos leitores do Reino Unido fazendo eco das estratégias de propaganda de sectores do Partido Conservador e da City londrina.

A venenosa demagogia de Trump na Carolina do Norte pode ter estimulado os seus verdadeiros seguidores, mas também provocou reacções contrárias. Pelo contrário, a história do arenque fumado de Johnson foi tratada ironicamente, um pouco em tom jocoso, dentro do padrão segundo o qual “Boris é uma espécie de carta de trunfo” mas para não ser levado muito a sério.

Um estilo que tem adeptos

O que levanta a possibilidade de a abordagem de Johnson ser mais perigosa que a de Trump, por ser mais insidiosa.

Os eleitores britânicos sempre se sentiram atraídos por políticos que se apresentam de maneiras pouco convencionais. Nigel Farage cultiva esse tipo de pessoa pública, com a sua cerveja e as abordagens jocosas. Ele e Johnson fazem parte de uma tradição de políticos que se especializam na bonomia de Falstaff, persuadindo grande número de eleitores de que, apesar de mostrarem as suas falhas, são o sal da terra. Exemplos bem-sucedidos dessa táctica incluem o antigo dirigente trabalhista George Brown, notoriamente adicto do álcool, e o parlamentar liberal Cyril Smith que, conforme a polícia confirmou após a sua morte, molestou crianças com oito anos de idade (havia 144 queixas, mas nenhuma acusação formal).

Johnson e Trump são daquele género de pessoas que não são levadas suficientemente a sério, até que seja tarde demais. Mas carregam nas mesmas teclas políticas e emocionais dos líderes fascistas dos anos vinte e trinta. Como eles, chefiam movimentos populistas nacionalistas. “Queremos construir um muro, um muro protector”, disse Goebbels.

O “salto no desconhecido”

Vale a pena olhar para uma cópia do New York Times datada de 31 de Janeiro de 1933 – um dia depois de Hitler se tornar chefe do governo alemão. É qualificado como uma pessoa decente, mas complacente, que calcula mal os riscos que tem à frente. O jornalista está seguro da oposição interna que o novo chanceler enfrentaria “se procurasse traduzir em acção política os seus discursos selvagens e incoerentes”.

O artigo prevê que o chanceler seja “um Hitler domado” de que muitos alemães falam com convicção. Esta perspectiva minimiza as expectativas sombrias da situação: “Há sempre que prever alguma transformação quando um demagogo radical luta por um cargo de responsabilidade”, pelo que o julgamento deve ser reservado até que exista a certeza de que o novo homem no poder é “um agitador volúvel”. “Quem forçaria o povo alemão a dar um salto no desconhecido?”, pergunta-se o autor do artigo.

A retórica de Trump é mais beligerante e assustadora que o discurso comum de Johnson, mas este pode vir a ser um homem ainda mais perigoso. Apesar do seu tom bombástico, Trump tem vindo a seguir uma linha onde ainda se nota algum realismo e alguma cautela, visíveis no facto de não ter iniciado qualquer conflito armado, apesar das ameaças. Para ele será fácil argumentar que cumpriu a promessa de “fazer a América grande de novo” porque os Estados Unidos já eram o país mais poderoso do mundo, embora esteja a perder influência.

Johnson tem um caminho muito mais difícil, porque o poder da Grã-Bretanha no mundo se tornou muito mais fraco do que as pessoas no país – e sobretudo os membros do Partido Conservador – imaginam. A sua alternativa ao confronto com a União Europeia é tornar-se mais dependente dos Estados Unidos num momento em que as políticas deste país são mais voláteis e egocêntricas. A colaboração britânica com os Estados Unidos no conflito com o Irão, ao mesmo tempo que Londres pretende não parecer um simples braço de Washington, é um sinal bem actual do perigoso caminho que o novo primeiro-ministro tem pela frente.

Trump tem estado, certamente, a dividir os Estados Unidos; mas os Estados Unidos sempre estiveram divididos entre questões rácicas e os legados da escravatura. As divisões que estiveram na origem da Guerra Civil de há 160 anos são ainda as principais clivagens na América de hoje.

No reino Unido, a polarização decorrente do Brexit é muito mais recente, profunda e mais incerta; e, no final de contas, envolve um salto muito arriscado no desconhecido.




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