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CHINA, UMA DÉCADA DE RÁPIDO CRESCIMENTO

Os resultados do modelo económico chinês merecem ser olhados com muita atenção

2019-05-10

Jorge Fonseca de Almeida*, especial para O Lado Oculto

Enquanto Portugal e outros países periféricos da Europa entravam a partir do inicio da crise de 2008 em recessão, seguida de uma muito tímida recuperação levando a que a década que medeia de 2008 a 2018 tivesse sido um longo período de empobrecimento para muitos e de estagnação para o global da economia, a China prosseguia um caminho de crescimento e de afirmação económica.


Segundo Zhang Jun, a “economia chinesa triplicou entre 2008 e 2018. Em 2008 o PIB chinês era 50% inferior ao Japão e em 2018 já era 2,3 vezes superior” (Jun, 2019). Espantoso. 

Este desempenho económico e social chinês surge, aos olhos de muitos analistas, como resultante do modelo de economia mista com planeamento central flexível adoptado pelo país. Um modelo que a China tem vindo a refinar desde 1949, ano em que Mao Zedong chegou ao poder em Beijing.

Um crescimento que vem na linha do que já tinha sido atingido em anos anteriores, em que a China se tem modernizado a um ritmo surpreendente (ver Mapa 1).

De facto, entre 1990 e 2009 a China cresceu 536% (!), o que compara com apenas 61% dos Estados Unidos, e aumentou a sua quota do crescimento mundial de 1,4% para quase 20% em 2012 (Mapa 2). Assim, de todo o crescimento mundial um quinto é assegurado pela China. 

Um país que em 1949 era um Estado semifeudal e completamente destruído pelas invasões estrangeiras e pela guerra civil, em que a esmagadora maioria da população vivia no campo e as fomes matavam ciclicamente centenas de milhares de pessoas, está, escassas décadas depois, à beira de se tornar a maior economia do mundo. Sem dúvida o maior caso de sucesso do pós II Grande Guerra.

Mapa 1

Crescimento do PIB entre 1990 e 2009 (China e EUA)


Fonte: FMI


Mapa 2

Quota da China no crescimento do PIB mundial



XII Plano quinquenal (2011-2015)


Enquanto a Troika, constituída pelo FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia, entrava triunfalmente em Portugal e impunha ao rendido governo de Passos Coelho todo um programa de destruição social e de recessão económica que lançou dezenas de milhares de portugueses no desemprego e meio milhão de pessoas na rota da emigração, a China executava o XII Plano Quinquenal (2011-2105). 

Naturalmente a austeridade não constava do Plano, que em larga medida procurava responder à crise financeira e pilotar a China durante esses anos difíceis nos países capitalistas ocidentais. 

Curiosamente, enquanto Passos Coelho proclamava que era preciso empobrecer, o plano quinquenal chinês exibia como principal objectivo: melhorar o nível de vida das pessoas (Mapa 3). Duas perspectivas diametralmente opostas.

Os resultados foram um crescimento anual de 7,8% durante esses anos em que Portugal se afundava na recessão, um aumento da população urbana, um crescimento do investimento em ciência traduzido por uma subida impressionante do número de patentes registadas (a China atingiu em 2015 o número de 6,3 patentes por cada 10.000 habitantes).

Este rápido crescimento permitiu à China consolidar a sua posição de segunda maior economia mundial, logo atrás dos Estados Unidos, e de elevar o seu PIB per capita aos 7 900 USD.


Mapa 3


XIII Plano Quinquenal (2016-2020)


Construção de ponte sobre o rio Yangtze em Shanghai


Em curso está o XIII Plano Quinquenal, que abrange o período de 2016 a 2020 e prevê a conclusão da etapa de construção de uma “sociedade moderadamente próspera em todas as áreas” (Chinese Communist Party, 2016). 

Em linha com o planeado, a economia chinesa cresceu 6,9% em 2017 - uma nova aceleração. O comércio externo continuou a crescer a um ritmo forte (11%) e iniciou-se uma reforma profunda do sistema financeiro chinês com a fusão dos reguladores da banca e dos seguros, reflectindo a cada vez maior integração dos dois sectores, e várias reformas administrativas (Confederação Suíça, 2018).

Passos importantes estão a ser dados para reduzir a poluição atmosférica e dos solos, em linha com a visão de “Uma China maravilhosa” e da “Civilização Ecológica”; e também no campo da saúde, com o objetivo de ter todos os cidadãos cobertos por planos de saúde – um grande contraste com a redução de investimento em saúde em Portugal e com a negação de médico de família a centenas de milhares de portugueses.

O papel da China na arquitectura financeira mundial está igualmente a reforçar-se. Por um lado com os fundos alocados à Nova Rota da Seda - Iniciativa Cintura e Rota -  (com um capital na ordem dos 54 mil milhões de dólares) e, por outro, com o lançamento do AIIB, um banco de investimento de alcance regional.

O Banco Asiático para o Investimento em Infraestruturas (AIIB), lançado pela China em 2015 para financiar a construção de infraestruturas, alargou o número de países que participam no seu Capital para 77. Praticamente todos os países europeus e asiáticos são accionistas do Banco. 

Portugal também tem uma pequena quota, sendo representado no Concelho de Administração por uma austríaca, um francês e um alemão. Portugal detém apenas 0,2822% dos votos, contra, por exemplo três vezes mais que a Polónia ou mais de 10 vezes da Itália, o que mostra a falta de visão estratégica em manter uma parceria com a China. O investimento português está em linha com o que foi feito por Timor-Leste, um pequeno país pobre, que tem 0,1856% do capital do AIIB (AIIB, 2019).

O combate à pobreza também está presente. A China pretende fazê-lo através de políticas sociais que incluem apoio para que essas pessoas “entre outras coisas, desenvolvam negócios baseados em forças locais, encontrem empregos alternativos, mudem de zona, obtenham subsídios para a conservação do ecossistema e tenham acesso a programas educacionais e de assistência médica”. Assegurando aos que não possam trabalhar a necessária assistência social (Chinese Communist Party, 2016).


Plantação de Chá no Norte da China, parte do plano de combate à pobreza rural


Os programas sociais estão em expansão na China. Há uma forte vontade política de que a riqueza produzida chegue a todos.

Crescimento do Mundo em 2019 e 2020




De acordo com o World Economic Outlook, o crescimento mundial entrou em fase de redução. Assim, depois de um crescimento de 3,7% em 2018 prevê-se que 2019 seja marcado por uma redução para 3,5% e que em 2020 a taxa de crescimento planetária se situe nos 3,6%.

Na zona Euro o desempenho económico terá uma ainda maior desaceleração, situando-se em 1,6% em 2019 e 1,7% em 2020. O Japão também estará estagnado nestes anos que se aproximam (1,1% em 2019 e 0,5% em 2020). Nos EUA ainda será bem maior (2,5% em 2019 e 1,8% em 2020). 

Assim, enquanto os países ocidentais se mantêm basicamente num período de estagnação a China continuará a crescer a mais do dobro da taxa de crescimento económico mundial e a aumentar a sua quota na economia global.

Há alguns anos dir-se-ia que o chinês era um bom modelo para os países em desenvolvimento; hoje, porém, ele continua a dar excelentes frutos - garantindo um crescimento sustentado, uma melhoria dos níveis de educação e de vida da população e a erradicação quase completa da pobreza extrema - num momento em que a China já lidera muitas indústrias de ponta e em que o seu investimento no estrangeiro continua a aumentar.

É tempo, pois, de analisar em detalhe o modelo económico chinês, o mais bem-sucedido dos últimos 50 anos, e de perceber como pode ser adaptado à realidade nacional, obviamente muito diferente mas em que o modelo económico escolhido pelos governantes não permite ao país sair de uma longa e destrutiva estagnação. 

Economista, MBA

Referências

AIIB (2019). Members and Prospective Members of the Bank. [Em linha] https://www.aiib.org/en/about-aiib/governance/members-of-bank/index.html. Acedido a 7 de Maio de 2019.

Confederação Suiça (2018). China 2018 Economic Report. [Em linha] https://www.sinoptic.ch/embassy/textes/eco/20180601_China_Annual.economic.report.pdf. Acedido a 7 de Maio de 2019.

Chinese Communist Party (2016). The 13th Fie-Year Plan for Economic and Social Development of the People’s Republic of China (2016-2020). Beijing, Central Compilation & Translation Press.

Jun, Zhang (2019). “Uma década de grandes mudanças económicas na China”. Expresso. [Em linha] https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/economistas/detalhe/uma-decada-de-grandes-mudancas-economicas-na-china?ref=Opini%C3%A3o_outros. Acedido a 7 de Maio de 2019.

World Economic Outlook (2019). A weekening Global Expantion

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